Resenha de Signicidade por João Paulo Lorezon (2009).

Cidades ocultas.

Os poemas de SigniCidade, de Frederico Barbosa, vasculham os grandes centros urbanos com um olhar muito próprio

POR JOÃO PAULO LORENZON

“Enxergar é um luxo e nós nem temos ao menos que pagar por isso.” Assim dizia o poeta e pintor inglês William Blake e, de alguma maneira, é este o convite que o livro de poemas SigniCidade oferece ao leitor: um exercício do olhar.

A nova obra do pernambucano Frederico Barbosa, poeta, professor de literatura, amante de Poe e Baudelaire, é uma parceria com o Projeto Dulcinéia Catadora. Louve-se a ideia. Entre outras intenções, o projeto consiste em publicar livros com capas pintadas a mão por artistas e filhos de catadores de papelão e materiais recicláveis. No caso de SigniCidade, nada mais propício. A arte dialoga fortemente com o tema desta antologia.

Os poemas de Frederico Barbosa adentram as cidades e vasculham seu entorno. Lá estão ruas, ruelas, becos, esquinas, túneis, viadutos. Nessa incursão, o olhar do poeta convida para ver a cidade como construção humana, abismo de caminhos escuros e luminosos, paisagem contraditória, reflexo concreto do mundo contemporâneo.

Com sua perspectiva ao mesmo tempo amorosa e crítica, Barbosa aponta a dureza e a aridez da existência perdida nos labirintos das metrópoles e o prazer que existe na multiplicidade de vida dentro desse ícone construído pelo homem.

Centrados em São Paulo, sua cidade de adoção, e em Recife, onde o poeta nasceu, os versos passeiam por lá e cá. Mas não se limitam a essas capitais. Transcedem a elas, revelam uma cidade anterior, inominável. Cidade-signo que emerge às nossas vistas, que nasce a cada dia e é redescoberta em fragmentos de olhares. Cidade-mosaico de vida, de sons e sentidos.

SigniCidade consegue um delicado equilíbrio. A um só tempo, homenageia essa floresta urbana e revela uma observação severa dessa dura paisagem em tempos abismados. Mas o que se sobressai é o desejo de olhar e as reflexões a que esse olhar convida. Como escreveu Marcel Proust no clássico Em Busca do Tempo Perdido: “A verdadeira viagem não está em procurar novas paisagens. Mas em ter novos olhos”.

AS CIDADES E SEUS DONOS

2002

“há cidades desconfiadas

impessoais misteriosas

recife são paulo

em que se mora por empréstimo

de aluguel de passagem

sem se sentir dono

como inquilino temporário

mas que ninguém tem

há cidades que por mistério

se entregam por inteiro

salvador rio de janeiro

em que cada morador

é proprietário verdadeiro

em que todo o povo

sente-se e afirma-se dono

em todo gesto no menor jeito”

O que tramam as trilhas da cidade para o observador da esquina? E o que trama o observador da esquina para as trilhas da cidade? Estas são as indagações.

Resenha publicada na Revista Brasileiros, número 29, dezembro de 2009.

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