Resenha de A Consciência do Zero da Gazeta de Alagoas (2004)

Sai a antologia A Consciência do Zero, de Frederico Barbosa

Ao comemorar 25 anos de carreira poética dedicada ao experimentalismo concretista, o poeta Frederico Barbosa lança sua antologia A Consciência do Zero, pela editora Lamparina. “Este terceiro livro mostra que o lugar de Frederico Barbosa é entre os verdadeiros poetas da sua geração”, disse o crítico Antonio Candido, quando o poeta lançou Contracorrente (Iluminuras, 2000).

Mesma opinião tinha o poeta Haroldo de Campos “pelo sentido construtivo e gume crítico de seus poemas”. Já para a crítica Heloísa Buarque de Hollanda, o poeta “tem um tipo de negociação com o concretismo muito independente, muito interessante. Ele usa aquilo tudo, mas interpela de um jeito diferente…”.

O primeiro livro de Frederico Barbosa (Recife, 1961), Rarefato (Iluminuras, 1990) já reunia textos escritos desde 1978 e foi escolhido pelos jornais O Estado de S. Paulo e O Estado de Minas como um dos melhores livros do ano. O segundo, Nada Feito Nada (Perspectiva, 1993), ganhou o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. Mesmo “premiado”, Barbosa ficou sete anos sem publicar. O motivo? “É porque é muito mais fácil calar. Porque cansa dar murro em ponta de faca. Porque o natural é não fazer. Na verdade, o que espanta é que alguém escreva, publique, lute etc. Para quê? Até hoje não sei…”, disse.

A Consciência do Zero (Antologia de Infernos Diversos) reúne poemas escritos ao longo de quase três décadas (1978-2003) e publicados em cinco livros, desde Rarefato (1990) até Cantar de Amor entre os Escombros (2003). Esta obra funciona, assim, como um guia de viagem numa terra estrangeira, revelando as várias técnicas e recursos utilizados pelo poeta. Não é tarefa fácil resumir, em poucas linhas, todos os acidentes geográficos dessa pátria insólita.

Conforme escreveu Sebastião Uchoa Leite, o poeta mistura “Camus e o jazz, Beckett e filmes noir, João Cabral e os faróis de automóveis”. Longe de ficar estanque no âmbito verbal, Frederico Barbosa incorporou procedimentos de montagem e seqüência do cinema, os movimentos melódicos da canção, a rapidez informativa do jornal, entre outros códigos da aldeia enlouquecida, dinamizando a narrativa poética, que ganha agilidade e força de impacto.

Herdeiro do rigor construtivo da Poesia Concreta, evidente sobretudo em seus dois primeiros títulos, o poeta, desconfiando sempre de suas próprias conquistas, mudou de timbre em Contracorrente, optando por uma fala próxima à dicção da rua, embora fragmentária e metonímica, incorporando a gíria e o palavrão, flashes da cidade caótica e incursões no âmbito erótico-amoroso. Pouco propenso à abstração metafísica, o poeta se volta às questões da existência, ao ácido estar no mundo, tema desenvolvido, com especial atenção, no poema-livro O Louco no Oco sem Beiras (2001), em que define, num verso lapidar, sua angústia, mais intelectual do que emotiva: “Vivi torto porque quis, felizmente infeliz”.

Publicado no jornal Gazeta de Alagoas, no dia 27 de outubro de 2004. 

 

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