Louco no Oco sem Beiras – José de Paula Ramos Jr.

Quarta capa de Louco no Oco sem Beiras

Por José de Paula Ramos Jr.

Angústia, desespero, raiva e sensação de impotência perante a vida vazia de sentido. Nesse tempo em que a globalização neoliberal escarnece de qualquer humanidade, quem não se vê presa desses sentimentos? Exceto os ingênuos e os propagandistas da má consciência, quem não se vê mergulhado na mais melancólica depressão, que se traduz em síndromes e psicoses pânicas? Quem não se sente sem eira no oco do mundo reificado? Quem não se vê sem beira sequer onde se agarrar para não ser absorvido na mais completa alienação?
Somente a lúcida loucura parece capaz de servir de refúgio a tamanha barbárie. Não a loucura fácil, a loucura dos fracos, a loucura desistência, a loucura conformista; mas a loucura que se sabe subversiva da ordem dessa desordem aparentemente vitoriosa. Negação da negação, a loucura inconformista se insurge como necessidade de resgate do que ainda há de humano na humanidade. Do que ainda há de poesia.
Diz Adorno que, depois dos matadouros de Auschwitz, a poesia é impossível; mas não, a poesia, sublime loucura, é, mais do que nunca, possível e necessária.
Rilke recomendava ao jovem poeta que só escrevesse quando a poesia fosse uma necessidade vital. Assim se dá com Frederico Barbosa, embora não propriamente pelas veredas líricas de Rilke. Antes, sua poesia parece evocar aquela postulação do “mandato social”, a que se refere Maiakovski: o poeta reconhece na sociedade “um problema cuja solução só é concebível por uma obra poética”.
A poesia de Frederico brota do mundo das coisas e dos homens, no meio da selvageria reificadora, reconhecendo e anatomizando o processo alienante, pondo-se à margem dele, de dentro dele, recusando-o, questionando-o, buscando respostas, que, se não dão solução aos problemas, são capazes de identificá-los através de aguda e lúcida formulação poética, abrindo o caminho redentor.
Na poesia de Frederico Barbosa, a vida palpita como um pássaro nas mãos: apavorado, mas disposto a lutar pela liberdade, cônscio de que sem ela nada mais resta.
O que mais pode um poeta autêntico senão cantar o seu tempo? E se o tempo é de depressão, desespero e caos, o poeta procura uma harmonia possível? Não, os poemas de Frederico Barbosa vêm desafinar o coro dos contentes conformistas; eles falam da queda, de todas as descidas ao Inferno — as de Odisseu, Dante, Pound e Sousândrade —, atualizadas no inconformismo do homem contemporâneo, que, como Aquiles, aprisionado nas sombras do Hades, não aceita o mundo morto dos mortos, e insiste em manter-se íntegro na voragem do capitalismo.
A poesia de Frederico é necessária à preservação do humanismo possível, nesse momento em que o século XXI se inicia como uma anti-aurora crepuscular.

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