Contracorrente – Antonio Risério

Posfácio de Contracorrente
Antonio Risério

ALGUMAS PALAVRAS PARA FRED

Frederico (Fred) Barbosa fica num extremo luminoso, quase solitário. Numa ponta distante, muito distante, daquela em que ancorou, em barco de mínimo alcance, quem achava que, para ser poeta, o sujeito era obrigado a não saber o que era um poema. Ignorância que, se assumida por um músico, logo revelaria o absurdo dessa postura provinciana; para tocar violino, melhor virar as costas a qualquer instrumento de cordas… O problema é que isso aconteceu – e foi celebrado. Sob o baixo patrocínio de alguns professores universitários residentes no Rio de Janeiro, um grupo de garotos cariocas chegou a acreditar nesse impasse sem nenhuma mágica. Para ser poeta, era preciso ser analfabeto. Semi-letrado. E virar as costas à poesia. Reivindicando para si mesmos, o que é mais grave, o aval astral de Oswald de Andrade, libero pensatore que jamais confundiu a devoração antropofágica com os himens complacentes da “geléia”, reclamando antes, para a nova poesia brasileira, não a ignorância técnica, mas um acabamento de carroserie. A língua “natural e neológica”, sim, mas não o desconhecimento da língua – e da linguagem.
De outra parte, Fred continua num extremo luminoso – e quase solitário. E aqui podemos recitar Oswald: contra o gabinetismo, a prática culta da vida. Porque Fred é um poeta culto. Mas se acha, também, muito distante daqueles que, aprendendo a rimar e a metrificar, aprenderam apenas isso. Fred não tem nada a ver com os sorbonícolas (ou subsorbonícolas), de que falava o velho Rabelais. Com essa gente que aprendeu a fazer tudo certinho, tudo muito certo, certo às vezes até demais, mas que nunca aprendeu a acertar no – ou a iluminar um – alvo. Porque é uma gente que imagina que o alvo não está no escuro da criação, e sim em “watts” reguláveis de cadernos escolares, de bancos curriculares viciados e de ares que já não são ares, mas ventos corrompidos. É fácil reconhecê-los: imitando Haroldo de Campos, redigem parágrafos e mais parágrafos para tentar sobrepor uma maquiagem eruditizante aos versinhos que perpetraram, na tentativa de traduzir ninguém.
Fred se acha igualmente distante dos que, conjugando verbos muito particulares, não fazem outra coisa senão lutar, suarentamente, por um suposto poder literário. Estamos cheios disso. Desses oportunistas patológicos. Mas Fred não é uma invenção dos redatores-mirins de nossos “cadernos” supostamente culturais. Não se acolchoa em gabinetes com fins de autopromoção. Não paparica colunistas e quejandos. Não é o amiguinho – colega de escola! – do dono do jornal. Não faz gênero. Em suma: é um poeta, mas não, nunca, um empresário de si mesmo. E assim – em meio ao ingênuo “milk-shake” dos “marginais”, à gralheada boçal dos bonvicreeleys e às leis buenoacherianas dos sorbonícolas – ele vai dando o seu recado. Despachando as suas pedras. E pedradas. E é por isso mesmo que, num ambiente infestado por truquistas autopromocionais que não agradam, não alegram e nem agridem, Fred aparece como uma diferença mais do que saudável.
Por uma razão muito simples: Fred sabe escrever. Sabe compor. E, para lembrar uma teoria do velho e venerável García Lorca, além de se dar conta do que é um poema, Fred “tem duende”. Tem o diabo no meio do redemoinho das suas palavras pesadas – e pensadas. Não tem medo de assumir a herança de João Cabral e de Augusto de Campos, esses mestres da negação e da falta, da carência e da ausência, dos contatos imediatos com uma entidade a que chamaram “ex-ser”, em planos de galáxias e de fonemas. Na verdade, Fred parece não ter medo de nada. Nem de si mesmo – ou do seu próprio silêncio. E é isso o que lhe confere uma grandeza especial. Num país que transformou o haicai (a concisão nipônica) em veículo da tagarelice, Fred é uma violência necessária. É a contundência que tem o dom de nos remeter à significância do que se chama poesia.
É claro que me sinto longe do seu pessimismo. Um novo milênio – uma “nova era” – não é apenas uma nova topada. O Brasil é, para mim, signo de um renascimento, perspectiva de um projeto civilizatório. Mas vou encontrar Fred num signo muito antigo, chiamato amore. O encontro amoroso retira o poeta do meio dos vates, dos embates e dos combates da cidade. Dá-lhe meios de nos transfigurar a todos. E me impressiona o modo verbal e existencial dessa alquimia. Amadas, vinde: voltei. Só que desejaria um impossível. Que Fred dissesse: brasis, vinde – vou inventá-los. Talvez esteja querendo demais. O poeta não é um ideólogo. Mas deixe, Fred, que eu lhe perturbe, deixando aflorar esse desejo. Eu queria que as tuas belas pedras – a sua linguagem de porradas secas e de porretadas paradoxalmente sutis – voassem, mais do que voam, para um futuro chamado Brasil. De qualquer modo, tiro – e retiro – o chapéu para o que você já fez.

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