Um sinal de diferença nas trilhas de SigniCidade, de Frederico Barbosa

Um sinal de diferença nas trilhas de SigniCidade, de Frederico Barbosa

Por Susanna Busato

 O exercício poético da poesia do presente tem a consciência de que seu espaço se situa numa rede plural de possibilidades de escritura e de que seu tempo resgata um ponto nodal de vários tempos. A tradição não é feita de um texto único, inaugural, mas de um feixe de textos multicromáticos, cujas nuances projetaram no espaço da criação poética seus “avatares”. Os “-ismos” congregadores de sinais e roteiros para a poesia e a literatura organizaram uma tradição que está sempre presente no processo de leitura que fazemos das obras que o tempo alinhava em suas letras.

A poesia do presente, segundo Haroldo de Campos, “é uma poesia de pós-vanguarda, não porque seja pós-moderna ou anti-moderna, mas porque é pós-utópica”. (1984b, p. 5) Segue o poeta em seu raciocínio, afirmando que ao “projeto totalizador da vanguarda […] sucede a pluralização das poéticas possíveis. Ao princípio-esperança, voltado para o futuro, sucede o princípio-realidade, fundamentalmente ancorado no presente”. (p.5) Acrescentará a isto a declaração de Octavio Paz, que em Os filhos do barro dirá: “’a poesia de hoje é uma poesia do ‘agora’” (apud. Camposb, p.5). E nestes tempos pós-utópicos, portanto, “o presente”, segundo ainda Haroldo de Campos, “não conhece senão sínteses provisórias e o único resíduo utópico que nele pode e deve permanecer é a dimensão crítica e dialógica que inere à utopia”. (p.5) Tal dimensão estaria na operação tradutora como releitura do passado e, sobretudo, na ação de “recombinar criticamente a pluralidade dos passados possíveis”, presentificando como diferença essa poesia no poema pós-utópico. (p.5)

A reflexão de Haroldo de Campos leva-nos a questionar o que seria uma poesia centrada no “agora” e que dimensão temporal seria essa. E avançaríamos na reflexão nos indagando o que o “agora” da poesia nos reservaria e o que o momento presente dessa poesia revelaria de nós mesmos.

O livro “SigniCidade”, de Frederico Barbosa, lançado recentemente em São Paulo, numa edição do projeto “Dulcinéia Catadora”, idealizado pela artista plástica Lúcia Rosa, oferece-nos alguns caminhos para pensar sobre como perceber a “diferença” como presença na poesia do presente. Frederico Barbosa, poeta importante no cenário artístico e cultural de hoje, reúne em seu livro poemas escritos nos últimos vinte e sete anos, sob a temática da cidade.

A cidade é uma construção humana, cujo espaço de signos trama suas trilhas, paisagens e olhares, como um “caleidoscópio dotado de consciência”, que deflagra na forma do verso um “sinal de diferença” na indiferença metálica do cotidiano que a tudo engole, e que nos aparta, enquanto leitores, daquilo que a poesia definitivamente nos oferece como uma forma de conhecer o mundo e a nós mesmos.

No meio da confluência de formas e saberes a que assistimos hoje, há um lugar oculto, um oco, um “vazio” para o qual a consciência do sujeito poético retorna, pois o momento presente torna o transitório a força centrípeta que trai e atrai a poesia para a esfera do desafio de recusar o já feito… Vale citar aqui a lembrança de Octavio Paz, em Os filhos do barro, quando se refere à confluência dos sentidos do mundo em Baudelaire como o centro da analogia, no qual há um “oco”, e que por meio dele se precipitam e desaparecem, simultaneamente, a realidade do mundo e o sentido da linguagem. Afirma Paz que a pluralidade de textos nos remete para a não existência de um texto original. E acrescenta que Mallarmé será “aquele que se atreverá a contemplar esse oco e converter essa contemplação do vazio na matéria de sua poesia”. (apud CAMPOSb, 1984, p. 4)

No processo de construção de uma dimensão crítica do presente a poesia de “SigniCidade” adere, por meio de uma razão antropofágica, à invenção de si própria no espaço cosmopolita em que o homem hoje situa sua crise. O espaço dessa poesia é constituído por uma trama feita de sobras, resíduos formais e imagéticos, que inauguram uma cidade de signos, que se oferece ao movimento do olhar do sujeito que reinaugura pela palavra/movimento um tempo e um espaço únicos.

O tempo do olhar é um tempo fugaz na cidade. Como deter-se em meio ao caos, em meio ao movimento? Inserido na cidade, consciente do labirinto no qual está preso, o sujeito parece inerte e seguidor dos sinais que não o levam a lugar algum. Imagem bárbara já percebida por Edgar Allan Poe, no conto “Um homem na multidão”. O sujeito, eivado pelo prazer que a multidão lhe causa, a partir do lugar confortável em que seu olhar se situa do lado de cá da janela, é drasticamente deslocado para um personagem estranho que emerge do cenário urbano, em que blocos homogêneos de pessoas são ironicamente descritos pelo narrador. Por um impulso, o sujeito é levado a seguir, como uma sombra, o objeto de seu olhar no trajeto bizarro e labiríntico que o outro coreografa no espaço tortuoso das ruas da cidade. Não há enlevo, não há admiração, mas um incômodo profundo por parte do narrador, qual um pesadelo vivesse, embora acordar seria deixar de experimentar o mistério daquele que não consegue viver fora do labirinto da cidade, o mistério daquela criatura, puro ícone do transitório, da automação e da inquietude, a que o narrador é submetido. Lado cruel que Edgar Allan Poe nos oferece para pensarmos a catástrofe do homem moderno.

Na poesia da “SigniCidade”, a tradição é relida no olhar do “flaneur”, do observador apaixonado, no instante do flagrante em que, na multidão, como um movimento ao revés, surge aquela que ainda tem poder de iluminar o poema. Um misto de musa encarnada e beldade citadina que “num lance de dados” mobiliza os versos do poeta para sua trajetória inspiradora do canto. Entretanto, a poesia que nasce deste poema não se constrói a partir de um sujeito “tocado” e deslocado do seu eixo. Seu olhar já acostumado ao ritmo frenético da cidade, para existir como poesia necessita aderir ao objeto de seu olhar e transformar-se em linguagem. A percepção que tem do objeto revela-se objetivada na tradição que insiste no poema. Remeto-me aqui ao poema de Frederico Barbosa, “Paulistana de verão” (publicado originalmente no livro Contracorrente, de 2000 e reeditado agora em “SigniCidade”, de 2009).

Paulistana de verão

branca

segura a saia

surpreendente e mínima

como quem não

se sabe mostrar

no calor

desacostumada

insegura

atravessa a rua

revela-se quase

sem querer

beleza ZL

descolada

fingida pedra

desce da penha

retrô querendo-se moderna

o vento

leva-lhe a quase

saia

e vê-se a jóia

surpresa lapidada

que desaparece na boca quente

do metrô

O título “Paulistana de verão” traz na locução “de verão” um sentido na preposição “de” que explicita a condição na qual o sujeito da expressão está submetido: a da transitoriedade. Sua existência possível é necessária no poema e revela-se como um jogo que procura driblar o acaso. Aponta também a locução um traço manifestamente solar, o que reveste a personagem de estranheza: o verão paulistano desacomoda o característico frio da cidade, que é a sua face mais centrada. E ainda: como as temperaturas são temperadas nessa região onde se localiza a cidade de São Paulo, uma paulistana de verão pode surpreender…

Metonimicamente a personagem adentra o poema. Sua presença “branca” invade o primeiro verso para compor um olhar, o do observador, que se abisma em seu objeto já fadado a esvanecer-se na sua passagem silenciosa e rápida. Para seguir-lhe os traços e os traçados de suas passadas que se coreografam nos versos curtos, o sujeito sucumbe e se transforma na linguagem que vai dando corpo à imagem-vulto (branca) que seduz o olhar. A beleza sensual que surpreende no seu gesto ao segurar a saia “como quem não/ se sabe mostrar”, traz no corte dos versos o ritmo ondulatório com que o olhar do sujeito revela o que não se mostra. A sensualidade de seu movimento é coreografada pelas sibilantes da primeira estrofe (“Segura”, Saia”, “Surpreendente”, “Se”, “Sabe”, moStrar”). É o movimento de sua passagem insegura que chama a atenção, pois se apresenta “descolada”, puro resíduo poético, “beleza ZL”, linguagem deslocada que se auto-referencia (“beLeZa”) para graficamente (“ZL”), de modo invertido, situar no plano visual da linguagem do poema o resíduo dessa poesia “colhida às pressas” na personagem que “atravessa a rua” e a dicção do poema.

Impossível não se lembrar dos versos de “A uma passante”, de Baudelaire. Entretanto, a preposição “a” do título do soneto traz o caráter de uma dedicatória, elegendo a personagem flagrada entre a multidão ruidosa como a beleza particular que modifica e dá plenitude ao traço de beleza da própria poesia.

O soneto de Baudelaire é exemplo revelador desse olhar apaixonado pela metrópole, que se vê arrebatado pela beleza da passagem breve de uma mulher em meio ao frenesi e alarido da multidão. Seu enlevo ao descrevê-la, sua paixão pela sua visão, promove nele o “choque”, a experiência do deslocamento, que percebe na confluência dos encontros de pessoas, veículos e luzes o elemento de beleza flagrado na personagem da passante que vem unir-se ao conceito de Belo e completá-lo.

A rua em torno era um frenético alarido.

Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,

Uma mulher passou, com sua mão suntuosa

Erguendo e sacudindo a barra do vestido.

(BAUDELAIRE, 1995, p.179)

A poesia nasce do resultado do choque que coloca o sujeito “Qual bizarro basbaque” frente àquilo que formalmente se situa num patamar de alteridade frente ao prosaico do mundo, transcendendo-o. Ainda, o sujeito está na posição do “flaneur”, do observador apaixonado.

Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.

Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia

No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,

A doçura que envolve e o prazer que assassina.

(BAUDELAIRE, 1995, p.179)

“O êxtase do citadino”, afirma Benjamin (1983), é um amor não já à primeira vista, e sim à última. É uma despedida para sempre que, na poesia, coincide com o instante do enlevo. Desse modo o soneto apresenta o esquema de um choc, ou melhor, de uma catástrofe que atingiu juntamente com o sujeito também a natureza do seu sentimento. (p. 38)

O sujeito do poema entrega-se a sua visão e os tercetos finais assinalam seu sentimento exasperado:

Que luz… e a noite após! – Efêmera beldade

Cujos olhos me fazem nascer outra vez,

Não mais hei de te ver senão na eternidade?

Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!

Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,

Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!

(BAUDELAIRE, 1995, p.179)

A passante de Baudelaire não é mais bela que a paulistana de Frederico Barbosa. No entanto, aquela é emoldurada no poema como um quadro estático, cuja descrição o sujeito procura retesar nos versos, mais ainda nos efeitos que causam nele a visão. A paulistana, por sua vez, está em pleno movimento na cidade vertical do poema.

Os versos curtos divididos em cinco estrofes irregulares mimetizam a passagem vertiginosa desta passante paulistana, que vai adquirindo ao longo dos versos uma presença abstrata, quase mítica. Seu ser inseguro no primeiro enquadramento vai se constituindo em linguagem ao se movimentar por entre os versos já “desacostumada/ insegura” para atravessar a rua (ou o poema) e revelar-se “quase/ sem querer”. Percebe-se o jogo de luz e sombra com que a personagem da poesia, sujeito do poema agora, performatiza sua presença como um “quase”, como “fingida pedra”, como um querer ser a tradição e achando-se moderna (“retrô querendo-se moderna”), condição de uma poesia do presente que oscila e flerta com o leitor, como esta paulistana desacostumada ao verão da cidade. Uma poesia que revela, quase sem querer, sua “jóia/ surpresa lapidada” para, em seguida, cumprir o seu destino já prescrito no início do poema: sua presença fugaz esvai-se na “boca quente/ do metrô” (ela cumpre, portanto, seu rito). Mais uma vez, a poesia volta-se para o plano mítico de onde surgiu no início do poema: “branca” é a luz, o cenário, a atmosfera de onde surge em pleno verão a musa desta cidade, desta poesia do transitório; e a “boca quente/ do metrô” revela o retorno para o subterrâneo (o oculto), numa leitura tentadora neste momento do poema que me leva a rever, translido e transrelido, o mito de Orfeu e Eurídice, cuja descida para os infernos, e seu retorno dramático às profundezas pelos olhos apaixonados de Orfeu, que não resiste olhar para trás para revê-la, está na memória da imagem da musa paulistana que o poeta aqui vê desaparecer na “boca quente do metrô”…

“Paulistana de verão” revela-se uma alegoria da própria poesia cuja consciência crítica sabe de seu presente de rasuras, de recusas e de retornos, e sabe que a consciência crítica da sua agonia semeia o espaço poético. O momento pós-utópico (de que fala Haroldo de Campos) deve ser traduzido como um momento em que o tempo é um elemento necessário para que a crítica e a reflexão se revelem na palavra poética, de modo a extrair dela seu poder de invenção. E tecer, como assinala Octavio Paz (1984), a “visão do agora como centro de convergência dos tempos”, que “não implica o desaparecimento do passado ou do futuro. Ao contrário, adquirem maior realidade: ambos tornam-se dimensões do presente, ambos são presenças e estão presentes no agora”. (p.198) A poesia do agora emerge, portanto, de um olhar que lê a poesia como um retorno ao presente, inaugurando nele um ato original.

A beleza como um dado poético é, pois, reciclada e reinaugurada pelo poema “Paulistana de verão”: ser “beleza ZL”, mais do que se referir à expressão “zona leste”, que estaria no plano semântico do signo, traz para o plano formal do poema uma presença gráfica e visual que subverte na palavra o sentido primeiro. A “beLeZa” como signo – “ZL” – oferece-se como matéria plástica, ao revés. Sua existência para o poeta é mínima, pois é transitória, fruto do seu meio, mas surpreendente porque carrega ainda a “jóia lapidada” que lhe dá o caráter autêntico, embora se revista do ser fingida (“fingida pedra”): está onde não se espera encontrar, é um estar e um não-estar entre a gente, é um ser querendo não ser… Não haveria aqui nessa coreografia do olhar algo que Camões já cantara em seus sonetos? O próprio olhar do sujeito que segue seu objeto do olhar adere a ele e faz da sua percepção a poesia com que o traduz. O pensamento aqui pode ser labiríntico, mas não se perde neste momento da reflexão que faço, pois adere ao resíduo da tradição que não tarda ao poema que busca a poesia nas suas valas. Não no tema, mas na forma, na idéia da forma com que o sujeito se agrega ao objeto que persegue seu olhar. Um olhar que já não pode porque ele mesmo é o objeto. Não se refere ao gesto contemplativo esse exercício, mas a uma projeção do sujeito no objeto do seu olhar até virar linguagem. Voltemos a Camões!

Transforma-se o amador na cousa amada,

Por virtude do muito imaginar;

Não tenho, logo, mais que desejar,

Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,

Que mais deseja o corpo de alcançar?

Em si somente pode descansar,

Pois consigo tal alma está ligada.

Mas esta linda e pura semidéia,

Que, como o acidente em seu sujeito,

Assim com a alma minha se conforma,

Está no pensamento como idéia;

E o vivo e puro amor de que sou feito,

Como a matéria simples, busca a forma.

(Luis Vaz de Camões)

É a matéria simples da poesia que vem ao alcance do poeta contemporâneo buscar uma forma de existência ainda nestes tempos sem utopia, mas prenhes de poesia.

No exercício da tradução, ou seja, da leitura crítica, alegada por Haroldo de Campos como o princípio norteador para buscar na literatura aquilo que lhe pertence, para semear com resíduos a poesia do agora, é que percebo a invenção como a “ponta de lança” de uma poesia compromissada com nosso tempo e da qual “Paulistana de verão”, de Frederico Barbosa, é matéria exemplar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARBOSA, Frederico. Contracorrente. São Paulo: Iluminuras, 2000.

BARBOSA, Frederico. SigniCidade. São Paulo: Dulcinéia Catadora, 2009.

BAUDELAIRE, Charles. Poesia e Prosa. (Org. Ivo Barroso). Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.

BENJAMIN, Walter. “Sobre alguns temas de Baudelaire”. In: BENJAMIN, Walter et al. Os Pensadores. Textos Escolhidos. 2ª.ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. 29-56.

CAMÕES, Luís Vaz de. Lírica Completa, Vol. II: Sonetos. Lisboa, IN-CM, 1980.

CAMPOSa, Haroldo de. “Poesia e Modernidade: da morte da arte à constelação.” In: Folhetim. Suplemento do jornal A Folha de S. Paulo, 07/10/1984, p. 2-4.

CAMPOSb, Haroldo de. “Poesia e Modernidade: o poema pós-utópico”. In: Folhetim. Suplemento do jornal A Folha de S. Paulo, 14/10/1984, p. 3-5.

PAZ, Octavio. Os filhos do barro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

Ensaio publicado no Portal Cronópios no dia 25 de novembro de 2009.

http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=4307

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