A tradição do rigor e depois…

A tradição do rigor e depois…

(Palestra proferida em 1990 no Memorial da América Latina)

Frederico Barbosa

 
Um, dois, três, quatro… Quatro nomes, três palavras, duas indagações e uma afirmação categórica. Nisso poderia resumir todo o pouco que tenho a dizer.

Os nomes: Gregório de Matos, João Cabral de Melo Neto, Haroldo de Campos e Augusto de Campos.

As palavras: critério, rigor e exigência.

As indagações: como continuar a “tradição do rigor” estabelecida na literatura brasileira por esses poetas? E, ainda mais, como fazê-lo procurando ampliar o exíguo público leitor hoje dedicado à poesia?

A afirmação: arte é norma, poesia é palavra em ordem.

Começo pela mais do que conhecida formulação de Roman Jakobson: “A função poética projeta o princípio de equivalência do eixo de seleção sobre o eixo da combinação” . Basta ter isso em mente para concluirmos que discutir poesia, a rigor, é discutir critérios de combinação. Hoje não se discute poesia. Poetas, leitores, críticos, quem tem critérios? Livros e livros, coleções inteiras, são publicados, e quem discute poesia? Simpósios, congressos, semanas, e quem discute poesia? Onde discuti-la? Nas universidades não se discute poesia. Faz-se a mesma eterna paráfrase de poetas e críticos. Discutem-se sistemas. Busca-se o “espírito da nacionalidade”. Repete-se, repete-se, repete-se. O vago do vácuo. Nos meios de comunicação, não se discute poesia. Valem mais os interesses pouco claros dos editores. Valem mais as pressões, os lobbies, os enigmas. O vago da voga. Quem tem critérios? Sobram os farelos da poesia.

João Cabral de Melo Neto, em rara conferência, pronunciada nesta cidade em 13 de novembro de 1952:

“Dentro das condições da literatura de hoje, é impossível generalizar e apresentar um juízo de valor. É impossível propor um tipo de composição que seja perfeitamente representativo do poema moderno e capaz de contribuir para a realização daquilo que se exige modernamente de um poema. A dificuldade que existe neste terreno é da mesma natureza da contradição que existe, hoje em dia, na base de toda atividade crítica. Na verdade, a ausência de um conceito de literatura, de um gosto universal, determinados pela necessidade – ou exigência – dos homens para quem se faz a literatura, vieram transformar a crítica numa atividade tão individualista quanto a criação propriamente. Isto é, vieram transformá-la no que ela é hoje, antes de tudo, – a atividade incompreensiva por excelência. A crítica que insiste em empregar um padrão de julgamento é incapaz de apreciar mais do que um pequeníssimo setor das obras que se publicam – aquele em que esses padrões possam ter alguma validade. E a crítica que não se quer submeter a nenhum tem de renunciar a qualquer tentativa de julgamento. Tem de limitar-se ao critério de sua sensibilidade, e sua sensibilidade é também uma pequena zona, capaz de apreender o que a atinge, mas incapaz de raciocinar claramente sobre o que foi capaz de atingi-la.“

O modernismo não foi o único culpado. No Brasil, a falta de rigor, de critérios e exigência é bem mais antiga e profunda. Mas a leitura superficial do modernismo, principalmente de poetas que já não primam pelo rigor, como Carlos Drummond de Andrade, em muito contribuiu para que se instaurasse o princípio do vale tudo poético no país. Quando “qualquer coisa” é poesia, nada o é.

Criar para um público desprovido de qualquer exigência crítica, é uma atividade muito pouco estimulante para aqueles que fogem ao imprecisão do conceito de arte e poesia do modernismo, muitos se refugiam no conceito ainda vago de “pós-modernidade” para justificar ou a falta de elaboração poética, a falta de critérios seja na criação seja na fruição da poesia, ou mesmo o retrocesso escancarado, o retorno ao que há de mais nocivo num certo romantismo ou num certo parnasianismo. O sentimentalismo barato e a adoção de moldes rígidos para o poético. Recai-se comumente em duas posturas aparentemente opostas que, de fato, se complementam: a do espontaneísmo ególatra de caráter romântico, disfarçado, em muitos momentos, por pela ornamentação artificial e pseudo-erudita de caráter parnasiano.

Não restam dúvidas de que a modernidade, na sua ilusão libertária, chegou a um beco sem saída. Os diluidores, os epígonos do moderno, tornaram a poesia um jogo fácil. A história literária do nosso modernismo não deve ser complacente nem com alguns dos seus ditos grandes poetas, como Carlos Drummond de Andrade, que acabaram por se tornar auto-diluidores confessos, os Bilac e Coelho Neto da modernidade. Gerando mais diluição ainda ao afirmar e reafirmar que a poesia está nas ruas, que depende de um momento iluminado de inspiração. Mas, a partir da constatação quase universal de que o modernismo, quebrando as barreiras do passado, levou a arte a um impasse, as saídas são várias.

A mais fácil é sem dúvida jogar fora o lema poundiano do “make it new”, e enveredar por um pretenso jogo intertextual que, na maior parte, se resume a entregar os pontos, copiar, trocar o “ready made” pelo “already made”, preferir ser “eterno” a ser moderno. Constatar que, não havendo nada de novo a dizer, deve-se dizer apenas o que já foi dito, o que funciona. Trata-se, parodiando um conhecido sindicalista pelego e entreguista, da “poética dos resultados”. Não arriscar: fazer o óbvio ao se perceber a incapacidade de se fazer o “novo”. Gregório de Matos:

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco c’os demais, que só, sisudo.

A ambigüidade do primeiro quarteto -”ir ao fundo”, aprofundar-se e/ou afundar-se – desdobra-se na ironia do segundo: “seguir o imundo caminho” como sugestão de remédio para os que andam por “vias desusadas”.Rejeitando o “remédio” da inserção na mediocridade, “o engenho mais profundo” se nega a seguir qualquer receita. Nessa negatividade toda reside a poesia. A verdadeira poesia nasce da recusa, da negação ao banal cristalizado, à saída fácil. Já disse Paul Valéry: “Tenho o instinto de não escrever – e portanto de não pensar, de não apanhar quando vêm ao pensamento – as coisas de uma vez. No que sou anti-poeta por caráter, por recusa.” Nessa recusa ao imediato fundamenta-se a “tradição do rigor”.

Na ilusão de aproximar mais a poesia do leitor muitos seguem o caminho das “bestas” que “andam juntas mais ousadas”, buscam o receptor baixando a densidade poética. Claro engano: só uma poesia tensa e densa pode atrair um público leitor surdo há quase quinhentos anos. Cabe frisar: um público leitor ( de fato ) e não apenas consumidor de modismos baratos. Por que gostar de ler poesia, se não há, nessa poesia, algo que a torne única, singular, rara, que demonstre rigor na composição, que seja poesia, e não concessão, diluição, prosa?

As concessões são várias. “As vanguardas morreram” grita a turba dos que não sabem superá-las, buscando, no “pós-moderno”, a desculpa para uma poesia rala. A diluição é a regra. Diluição da poesia visual, do haicai, do poema piada, do concretismo, de tudo o que já foi saída para poucos e agora é vício para outros muitos. A febre do haicaísmo que assola o país é um bom exemplo: organizam-se concursos de haicai como outrora organizavam-se concursos de sonetos. A arte densa de Bashô virou fórmula rápida para se obter um poema.

A poesia concreta, cujos fundadores sempre foram os maiores defensores e estimuladores da “tradição do rigor”, acaba, ironicamente sofrendo muito com as diluições apressadas. “É fácil fazer um poema concreto” sempre acusaram os reacionários, os inimigos do novo. Embora esses pouco tenham conseguido contra o rigor do concretismo, os imitadores, os diluidores conseguem a cada dia mais passar essa imagem de gratuidade no projeto verbivocovisual original, que acaba se transformando num delírio pop e inconseqüente na mão de amadores que não têm nem o vasto arsenal teórico e cultural, nem a sensibilidade dos pioneiros da poesia visual.

A poesia em que não se percebem articulações formais, condensamentos lingüísticos, descobertas originais, não tem nenhum vantagem sobre a prosa mais banal, e não pode, assim, conquistar um público leitor que ainda tem que ser alfabetizado para o poético, para o jogo lúdico das formas. Formar o leitor crítico e lúdico; eis uma missão que só pode ser levada a cabo com uma poesia absolutamente rigorosa, caso contrário sempre há de perder para a prosa mais fácil e mais imediata. Voltemos à poesia:

Augusto de Campos:

postudo

“Quis tudo tudo tudo tudo. Mudar mudei agora mudo. Pós ex. Ria. Só.” Há quem mude, até rindo, há quem saiba calar e mudar. “O prudente varão há de ser mudo/Que é melhor nesse mundo, mar de enganos/ Ser louco c’os demais que só, sisudo.” Coincidências do rigor? Como mudar tudo? Extudo: ir ao fundo. Ex-tudar, relativizar, deixar tudo no passado sem temer o silêncio, fruto, dizem, da explosão das palavras, do rigor. Mudar emudecendo, emudecer mudando. Quis tudo tudo tudo tudo. Lê-se, em acróstico, um grande só. Encontram-se, na solidão do rigor, os engenhos mais profundos: Gregório em Augusto, campos, matos, florestas de símbolos.

Cada poema é um problema. Hoje, cada poeta inventa a sua regra, e, ao mesmo tempo, como quebrá-la. Cada poeta está só e cada poema é uma solidão imensa. Não há arte sem regra. O difícil é inventar uma regra por poema. Vejamos, novamente, João Cabral ainda na mesma conferência:

“A regra não é a obediência, que nada justifica, a maneiras de fazer defuntas, pelo gosto do anacronismo, ou a maneiras de fazer arbitrárias, pelo gosto do malabarismo. A regra é então profundamente funcional e visa a assegurar a existência de condições sem as quais o poema não poderia cumprir sua utilidade. Para o poeta ela não é jamais uma mutilação mas uma identificação. Porque o verdadeiro sentido da regra não é o de cilício para o poeta. O verdadeiro sentido da regra está em que nela se encorpa a necessidade da época.”

A poesia contemporânea, ao menos aquela praticada por poetas de alguma forma preocupados com seu fazer, se encontra hoje na posição de um Ivan Karamázov, a personagem de Dostoievski que, constatando que tudo é permitido, conclui que é impossível se guiar por qualquer norma de conduta, qualquer moral – no se sentido mais amplo – e acaba levando o seu irmão bastardo e ingênuo, Smerdiakov, a cometer o parricídio sem qualquer razão a não ser para comprovar na prática as suas teorias niilistas.

A idéia tão propagada de que o ciclo das vanguardas encerrou-se, é claramente análoga ao crime de Ivan. ( É bom lembrar que Freud estudou detidamente esse “caso” literário, mas não vamos enveredar por esse caminho ) A liberdade absoluta, fruto da falta de critérios, da “preguiça” mesmo dos poetas em reelaborar constantemente suas exigências a cada novo poema, leva-os a matar o pai, que, com seu rigor, soube construir a sua própria liberdade.

Outro engano grave na produção poética contemporânea é o de se considerar essa situação de impasse frente á maestria da tradição, essa sensação incômoda de se encontrar num beco sem saída, como uma exclusividade da nossa época. Todo grande artista teve de encontrar formas de se inserir na tradição, em parte combatendo-a, em parte recuperando, nela, o que há de melhor. T.S. Eliot, é bom lembrar, já apontava esse problema em Tradition and The Individual Talent , em 1917. Para a poesia, todo o tempo é de crise.“But no matter what the crisis is / doing, doing, doing your thing” , diria Bob Marley. Ao poeta cabe continuar, radicalizando as crises para, assim mesmo, superá-las. Negar o rigor, as vanguardas, culpá-los pelo próprio raquitismo poético, é, no mínimo covardia e só pode levar a poesia para onde já está: o marasmo e a mesmice totais. Só pode distanciar cada vez mais o público que ainda se interessa por esse, em geral, engodo chamado poesia. Haroldo de Campos:

nada

ou quase

pouco

o poema

faz-

se

O que é surpreendente é que, em meio a tanto “nada” ainda se faça alguma poesia de rigor.

O que é surpreendente é que, no “mar de enganos” que nos cerca ( em qualquer parte ), surjam momento de lucidez, poetas críticos como Gregório, Cabral, Augusto e Haroldo.

A nossa missão é não deixar o rigor morrer, é propor sempre novos critérios, é sermos sempre mais e mais exigentes conosco e com nossos colegas. A nossa missão é, seguindo a “tradição do rigor, não como epígonos, como diluidores, encontrar a nossa contribuição individual para que ela não morra. É nela nos inserirmos. É acordá-la a cada dia. Para terminar com poesia, João Cabral de Melo Neto:

“Acordar não é de dentro,

acordar é ter saída.

Acordar é reacordar-se

ao que em nosso redor gira.”


Bibliografia Básica

Roman Jakobson – “Lingüística e Poética”, in Lingüística e Comunicação (trad. Izidoro Blikstein e J.P.Paes). São Paulo, Cultrix, 1969; p.130.

João Cabral de Melo Neto – “Poesia e Composição – A inspiração e o trabalho de arte”, in Gilberto Mendonça Teles (org.) – Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro. 3.ed. Petrópolis, Vozes; Brasília, INL, 1976; p.319.

Gregório de Matos – “Segue neste soneto a máxima de bem viver, que é envolver-se na confusão dos néscios para passar melhor a vida”. in José Miguel Wisnik (org.) – Poemas Escolhidos. São Paulo, Cultrix, 1976; p.253.

Paul Valéry – “Dos Cadernos”, in A Serpente e o Pensar (trad. Augusto de Campos). São Paulo, Brasiliense, 1984; p.96.

Augusto de Campos – “Pós-tudo”, in À Margem da Margem. São Paulo, Companhia das Letras, 1989; p.174.

T.S. Eliot – “Tradition and the Individual Talent”, in Selected Essays. London, Faber and Faber, 1961; pp.13-22.

Bob Marley – “Crisis” in Kaya. Island Records, 1978.

Haroldo de Campos – “O Poema” (fragmento), in Xadrez de Estrelas. São Paulo, Perspectiva, 1976.

João Cabral de Melo Neto – “O Auto do Frade” in Museu de Tudo e Depois. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1988; p.157

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Um pensamento sobre “A tradição do rigor e depois…

  1. Caro Frederico, ou, Professor Frederico, como eu o conheci. Gostei muito de da tua resistência às ralas poesia e sua insistência na qualidade da poesia. Parabéns!!

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