Resenha de Nada feito Nada por Manoel Ricardo de Lima (1993)

Frederico Barbosa mostra o “banal da vida”

Manoel Ricardo de Lima

 Autor de “Rarefato” lança “Nada feito Nada”, um exercício de metapoesia.

Basta passar os olhos em qualquer página de Rarefato (Iluminuras, 1990), que percebe-se algo de novo sob o sol. O primeiro livro de Frederico Barbosa é “universo referencial amplo”e muito mais.

Enquanto se discutem os avanços tecnológicos, onde enterrar o livro ou onde colocar o último compact disc, o poeta surge de normalidade e, como Ademir da Guia, desmancha as defesas e explode a arquibancada dos que não estão nas contas dos dedos. Não bastasse a licença em “rigor e rasgo” de Haroldo de Campos e as “minoritárias bênçãos” de Augusto, Frederico é poeta por si.

Experiência concreta, projeto realizado, dentro de um mesmo nada Pound e Mallarmé em faíscas de jazz em Ella, “venenos”de Verlaine e até uma mistura sã de Poe e Augusto dos Anjos: “somos um sonho podre / dos furos d’outro tempo / soro solvente espesso / tremendo fungo seco / sons de tumor e medo”. Nada feito Nada é algo de banal nessa vida vã. Um banal a tijoladas de palavras, despencando, descendo pouco a pouco em busca de lugar nessa mirabolante confusão de final de século, de língua. É metapoesia pra ser lida. Poema que faça-se ser entendido e não se dane. Poema pra tirar a idéia da cabeça que tudo é significante em linguagem metafórica, e trazer pro corpo o resto de limite poético que nos resta.

Em “sem nem”, publicado anteriormente na revista Exu de novembro/dezembro de 1991 em página dupla e feito ícone impróprio do mundo em descida – plano – subida, sem crer em nada e desmitificando a linguagem, o silêncio, a história; Frederico distribui vínculo nenhum aos suicidas (leia-se epígrafe de Duda Machado: “estava lúcido / que era um suicídio”) e dá o tom de sua biblioteca pessoal e repertório.

O percurso do menino que não sabia ler (leia-se Guimarães Rosa) à percepção das cores vivas, imagens ou não, na página. Abrindo a tampa do abismo que separa um “soco de Batman” de Júlio Verne/Lobato daquele tão angustiante e pesaroso (prazeiroso) Ulisses, a leitura impossível. A descoberta de que os cowboys também têm aventuras diferentes e que Joyce não era um deles. “Certa doença me isolou na biblioteca do meu pai.”

Ensinando os lugares e dando atalhos aos perdidos nessa tarefa de “quanto mais poesia menos dizer” mais e mais, caminha pelas curvas de 1840-1841, soltando versos sem a verborragia grosseira e doente de determinados senhores de cá que deviam começar seus estudos e isolar-se entre as estantes (que ela não caiam sobre suas cabeças).

Na última faixa do livro, inicia-se um show onde Mallarmé usa jeans e acorda pros novos acordes do mundo. E o piano de Pound, antena da raça, evoca o vento em um “claro / som / sem / brumas…”

“All nothing at all” determina o ritmo em desfecho “leminskamikase”, assovio de bomba, a prece de amor ao nada feito nada, sem meio termo: “Nada feito nada, / no poema / não há termo meio, / meio-amor, meia-palavra.”

Frederico Barbosa, sem nem nenhum limite, é poeta completo. Ficam aqui registradas não as bênçãos (porque estas sim seriam minoritárias), mas as saudações ao poeta, porque em tempos de telas de computador (venhamos e convenhamos) é muito bom ver um livro, livro.

 

Resenha publicada em em Fortaleza, 23 de maio de 1993 – caderno Vida & Arte, jornal O Povo.

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