Contracorrente – Antonio Candido

Quarta Capa de Contracorrente
Antonio Candido

O primeiro livro de Frederico Barbosa, Rarefato, começa por uma seqüência intitulada “A consciência do zero”; e este acaba com o zero de uma contagem regressiva bastante amarga a propósito da chegada do ano 2000. Não por acaso, é claro. A negatividade percorre a sua obra, manifestando-se como angústia existencial, como asco em relação ao estado da sociedade, mas também (pressentimos) como angústia quanto à fatura. Neste último caso ela tem algo de mallarmaico, como se o poeta soubesse que é preciso escrever, mas que a escrita corre o risco de dar em nada. A conseqüência é uma crispação traduzida em poemas que parecem às vezes conscientes do seu caráter de tentativa, não mais do que tentativa. Isso é visível sobretudo nos dois primeiros livros, o citado Rarefato e Nada feito nada, em cujo título revelador a letra O foi expressivamente destacada como zero pelo projeto gráfico. Neles, parece haver um esforço de experimentar que lhes dá por vezes certo ar de exercício. Sob este aspecto, Contracorrente é uma alteração muito positiva de curso e uma prova da capacidade de realização pessoal. Aqui o poeta parece estar além da pura experiência e plenamente integrado na sua personalidade poética. Simplificando, é possível dizer que passou do bom ao melhor, e do correto ao criativo, porque conseguiu manter a força da aventura formal sem deixar que ela desse a impressão de ser sobretudo jogo. E nós sabemos que um dos perigos da poesia, não apenas a de hoje, mas a de todos os tempos, é parecer mais jogo do que instauração. (Perigo tanto maior quanto há nela uma indispensável componente lúdica).
Ora, Frederico Barbosa instaura, isto é, elabora e torna sugestiva uma realidade que é posta acima do real, mas permanece fundamente marcada por traços pessoais e pelas representações do mundo, de maneira a construir uma visão própria, a partir da auto-visão. Para muita gente em nosso tempo, isso cheira a mensagem subordinada a intuitos extra-poéticos, mas na verdade é a mais profunda razão de ser da poesia. Neste livro há coragem de falar do eu e do mundo, mas de maneira que eles apareçam como invenções, não reproduções. Frederico Barbosa é capaz de reinventar, dentro de parâmetros que deixam para trás muitas convenções e lhe permitem fazer algo novo. É o caso do modo de tratar a cidade, que neste livro é não apenas presença concreta, mas pressuposto, como segunda natureza no mundo contemporâneo. É notável, por exemplo, a originalidade com que mostra, ou com que incrusta na filigrana dos versos, uma São Paulo toda sua, com novos cursos d’água criados como fantasmagoria pelas doenças da urbanização. Mas esta São Paulo é também presença latente em cenas e emoções. De tal modo que a cidade cantada pelos modernistas é renovada como dura paisagem, enquadrando uma experiência pessoal crispada, como convém a este tempo calamitoso.
Do mesmo modo, os estados da sensibilidade e da inteligência são submetidos a uma espécie de endurecimento, que lhes dá, por um lado, certo toque de áspero inconformismo; por outro, os tira do estado potencial de confidência para torná-los objetos poéticos, que valem por si, tornando-os bens de todos. Isso é devido em parte ao certeiro golpe de vista sobre as coisas e à notação sintética dos modos de ser, ambos reduzidos ao essencial. Frederico Barbosa é capaz de ver o mundo e a si mesmo num relance preciso; e de representar este relance com laconismo sem concessões, produzindo o impacto que se espera dos bons poetas. Daí a faculdade de instaurar, a que me referi, graças à qual ser e mundo se transformam em realidades poéticas que os transcendem.
Deixando de lado realizações mais ambiciosas, veja-se como exemplo esse flash que é o perfeito poema “Jeans”. A sua descarnada singeleza provém das qualidades que acabo de sugerir. Elas permitem transformar a sensação em emoção e esta em objeto poético, que já não é mais a moça que está na sua origem e serve para demonstrar a força desse poeta mergulhado na “cidade tentacular”. A sua modernidade se mostra não apenas nessas breves transfigurações do quotidiano, mas na presença dos livros, das alusões eruditas, das citações, isto é, do denso mundo da cultura que lhe servem de estímulo e constitui, também, uma segunda natureza. Por estas e outras, este terceiro livro mostra que o lugar de Frederico Barbosa é entre os verdadeiros poetas da sua geração.

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