Rarefato – Sebastião Uchoa Leite

Apresentação de Rarefato
Sebastião Uchoa Leite

Rarefato, de Frederico Barbosa, apesar de estréia, já contém complexidades de quem conhece bem o jogo poético. Dividida em seções que representam prismas semânticos diversos, a obra abre com um jogo de redundâncias significantes e metáforas fantasmáticas em que se estabelece um estado terminal e que se finda por um limite, ou seja, pela zeração do poético (“A Consciência do Zero”). Depois, narra-se algo obscuro, não determinado, para que o leitor decifre o alvo do poeta (“Na Mira”). Atmosfera semântica que envolve a metáfora vital do corpo e de situações em volta, “dados contaminados”, “uma cilada”, “cheiro de poeira acra” e buscas “(…) de um rastro secreto”. O que se acaba com um “desenho insano que se acaba em cada traço”. Influxos de filmes gênero policial noir, monologuismos beckettianos e batidas secas-ásperas de João Cabral. O tema Beckett da identidade em cheque, o dead-end em que desembocam todos os perseguidos da ficção e do real. Vertigens de Sá Carneiro, tentáculos afiados de linguagem e riscos suicidas (“Cartas a Kirilov”). Após essa abertura, urbe surge como “faísca viva, surgem as “multifaces” do cotidiano e o simples farol de carro identificado ao “sol”. A cidade é o habitat do poeta, onde se vive a rebeldia existencial (Camus, Dean), o terrorismo como oposição, o ar irrespirável e o radar poético dentro da fumaça: “mudo inundado de / filme negro fumaça morcego no ar / antema de rápido radar / anda / por ecos ondas e nós”.

O poeta evoca ainda imagens (“Austinights”), “uma chuva sem metáforas”, e tematiza o tempo todo a ausência de sentido do signo poético e de outros signos da existência em si. Evoca também envolvências ambientais (“Aos Mesmos Sentimentos”), sensações difusas em que intervê elementos não só visuais, mas táteis e auditivos. O poema “Star Dust”, com repetida evocação melódica de um jazzista cult (Lester Young) é o paradigma desse mélange das sensações. Ressurgem, afinal, indagações metalingüísticas (“Como Quem Lê”), ironias antipoéticas e identificações (“Sob a Sombra de João Cabral”). Que sejam citadas entre parênteses as antigas experiências do poeta as a young man (“Resistência ao Ar”), riscos assumidos em que se revelam as origens de sua formação (o estudo da Física, a poesia concreta e os experimentalismos poéticos em geral). Mas vê-se que o princípio da montagem e os elementos de forte visualidade não abandonaram o poeta, hoje numa trilha diversa de pesquisa semântica, menos unívoca e mais de interrelações e não menos experimental em certos aspectos.

É fácil identificar a que linhagem pertence Frederico Barbosa: a dos poetas intelectuais que não abrem mão de um universo referencial amplo e diversificado. Referências cultas se cruzam com outras mais acessíveis à formação média: Camus e jazz, Beckett e “filmes negros”, João Cabral e os faróis de automóveis. Nem tão intelectual, porém, que o poeta se negue a à narração de sensações mais concretas, menos filtradas por referências a Dante e Petrarca. A trilha dele ainda pode ser muito longa e talvez nos traga, quem sabe, surpresas. Mas o que aqui está, sem dúvida, já é um espaço próprio muito demarcado.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s