Entrevista a Claudio Daniel – 2003

O CANTAR NO AVESSO DA LOUCURA DO MUNDO: 
UMA CONVERSA COM FREDERICO BARBOSA 

Por Claudio Daniel

Publicado na Revista Zunái

Como surgiu o seu interesse pela poesia? Quais foram os livros e autores que o estimularam a escrever os primeiros poemas?

Frederico Barbosa – Eu sempre gostei muito de ler. Quando criança, costumava ler escondido à noite, iluminando os livros com uma lanterna sob os lençóis. Quanto à poesia propriamente dita, de início, a minha paixão se desenvolveu por culpa do futebol. Sou palmeirense roxo e no começo da adolescência meu maior ídolo era, é claro, Ademir da Guia. Morava, e ainda moro, perto do Parque Antártica, onde ia sempre vê-lo jogar… Um dia, quando eu tinha uns 14 anos, meu pai me mostrou o poema que João Cabral fez para o Ademir… A partir daquele momento não conseguia mais ver o Ademir jogar sem lembrar da descrição do Cabral… Já estava contaminado com o vírus da poesia.

Assim, a paixão pela poesia foi se se desenvolvendo, a partir do encontro com o poema de Cabral sobre Ademir, através da leitura de poetas como Gregório de Matos, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, entre os brasileiros, e Edgar Allan Poe, T. S. Eliot, Ezra Pound, William Carlos Williams, e. e. cummings, Rimbaud, Verlaine e Mallarmé entre tantos outros estrangeiros. Formou-se também a partir do convívio, muito precoce e sempre atento, com poetas como Augusto e Haroldo de Campos, Antonio Risério e Sebastião Uchoa Leite, entre outros.

Durante os anos de colegial, no final da década de 70, em meio à agitação cultural e política que marcaram o Colégio Equipe, em São Paulo, três professores foram fundamentais para fomentar minha vontade e meu vício de escrever poesia: José Luiz Beraldo, com seu rigor na análise cuidadosa dos fenômenos lingüísticos, Aguinaldo José Gonçalves, com suas leituras ricas, entusiasmadas e iluminadoras dos mais diversos poemas, e Gilson Rampazzo, professor de redação que, com suas posições firmes, instigava a discussão e me estimulava a escrever mais e mais, até mesmo, muitas vezes, com o intuito de me contrapor a suas idéias sobre o fazer poético.

Quando fazia faculdade de Física, entre os 18 e os 20 anos, costumava torcer pela continuidade das freqüentes greves da USP, para que tivesse tempo para ler mais. As “palavras de ordem” que alguns amigos e eu usávamos eram: “Greve geral, dá pra ler Stendhal!” Lembro-me bem de uma, durante a qual li e estudei a Ilíada e a Odisséia. Outra foi dedicada aos Irmãos Karamazov e a Os Demônios etc. O prazer era tão grande e intenso que acabei por abandonar o curso de Física e fui cursar Letras na USP. Lá, encontrei o maior túmulo do prazer relacionado à leitura que já vi: quem antes gostava de ler passava a fazê-lo apenas como obrigação; quem queria escrever era levado a desistir. Infelizmente, creio que o cenário continua basicamente o mesmo: a maioria dos cursos universitários de Letras nesse país ignora completamente a literatura contemporânea inventiva, poucos se preocupam em estimular a redação criativa entre os alunos. Pois bem, apesar da universidade, eu continuei gostando muito de ler e sentindo necessidade de escrever, embora quase tudo conspire contra. 

Seu livro de estréia, Rarefato, foi publicado em 1990 com prólogo de Sebastião Uchoa Leite, que aponta a mescla de referências em sua escritura poética: “Camus e o jazz, Beckett e filmes noir, João Cabral e os faróis de automóveis”. Comente a relação de sua poesia com as outras artes, e, em especial, o cinema e a música.

FB – Sebastião, no trecho que você cita, estabelece um paralelismo entre o jazz, os filmes noir e os faróis de automóvel. São, de fato, elementos do mundo em que vivo, em que as artes – como a música e o cinema – têm tanta importância quanto a dita realidade concreta – como os faróis de automóveis. Ao escrever meus poemas, portanto, o cinema e a música comparecem de maneira significativa, pois a atenção e essas artes compõe uma parte importante da minha vida.

Muitas das mais interessantes realizações de toda a história da arte surgiram a partir do diálogo entre expressões artísticas diversas. Estudar os procedimentos de uma arte diferente da que pratica é uma das maneiras mais fecundas de que um artista pode se valer para encontrar soluções inovadoras e criativas dentro de sua própria arte.   

 “A orquestra é uma cobra /ninfa seduzida / à sua volta / o clarinete / olhos abertos / evoca vento / acorda e nos devora”. Nesta peça (Tenderly), como em diversas outras de tua obra, a metáfora inesperada, por vezes violenta, perturba a tranquilidade do lirismo convencional, bem-comportado e rotineiro. A associação de imagens, em tua poesia, vem de uma leitura da tradição simbolista?

FB – Sim, mas não apenas da tradição simbolista. O processo de criação do poema que você cita, assim como de toda a seção Repertório do livro Nada Feito Nada (1993), é um bom exemplo daquilo a que me refiro na resposta anterior. Sempre tive problemas para encontrar “gatilhos” para escrever (o que alguns chamam de “inspiração”). Muitas vezes os busquei, conscientemente ou não, nas obras de arte (qualquer arte) que mais admiro. Sem saber que a experiência iria se multiplicar, escrevi, ainda no início da década de 80, dois poemas – publicados em Rarefato (1990) – a partir da audição de canções interpretadas por Billie Holiday e Lester Young. Como gostei do resultado, fiquei interessado em fazer um exercício consciente de escolher algumas canções e escrever a partir delas… Assim, a partir da audição de maravilhas como Ella Fitzgerald, Duke Ellington, John Coltrane ou meu amigo Carlos Fernando, o melhor cantor do Brasil, surgiu a seçãoRepertório. Realmente, nos poemas que resultaram da experiência, as imagens se misturam e entrecortam, em processo muito próximo de certos momentos radicais da poesia simbolista. Mas isso ocorre menos por qualquer empenho mimético e sim pela semelhança de processos: o jazz(música e fluência) sendo lido por um estilo que é música e fluência, o simbolismo 

“Nenhuma voz humana aqui se pronuncia / chove um fantasma anárquico, demolidor / amplo nada no vazio deste deserto”. A ausência da palavra, a solidão, a melancolia são temas comuns em sua poesia. Essa incomunicabilidade é um sinal de desencanto ou desconforto com o mundo circundante, regido pelo culto supersticioso à tecnologia, ao mercado e à mídia?

FB – Maravilhosa a sua interpretação do meu desespero. Creio que a ausência, a solidão e a melancolia são temas eternos, pois são inerentes ao ser humano. Na vida, quase tudo é sofrimento e morte. A felicidade é apenas uma ilusão muito efêmera.

Vivi torto porque quis / felizmente infeliz”. Até onde vai o pessimismo de Frederico Barbosa?

FB – Pessimista, eu? Só porque minha única certeza é que no fim tudo dá errado? Sou apaixonadamente descrente. Ateu fervoroso, niilista convicto. Paradoxo ambulante. Na adolescência, lia Dostoievski, Camus, Beckett e Nietzsche com fervor. Uma das canções populares que mais me tocaram foi God, de John Lennon: “God is a concept / By which we measure / Our pain”. Aquela sucessão de “I don’t believe in…”, associada ao poema Não, de Augusto de Campos, na verdade, foi o que provocou meu poema “sem nem”, de Nada Feito Nada. Nessa “poesia entre paredes”, como o colocou Augusto de Campos, creio que sintetizei essa descrença toda.

Nada Feito Nada, seu segundo livro, foi publicado em 1993 na coleção Signos, dirigida por Haroldo de Campos para a editora Perspectiva. Nesse livro, em peças como Labyrintho Difficultoso e Sem Nem, você utiliza recursos da estética do fragmento e da espacialização, dispondo as palavras na página de maneira lúdica, permitindo uma pluralidade de leituras. Estas experiências surgiram de um diálogo crítico e criativo com a poesia concreta?

FB – Seguramente. Muito da minha poesia nasce do diálogo com a poesia concreta.  Mas o que eu acho muito curioso é que, obnubilados por essa relação, muitos leitores, principalmente os ditos “críticos”, não percebem que esse é um livro muito mais barroco do que concretista. Por que o primeiro poema do livro tem o título grafado desta maneira: Labyrintho Difficultoso? Porque é o título de um poema visual barroco português recolhido por Ana Hartley na maravilhosa antologia A Experiência do Prodígio, que, por sua vez, serviu de modelo para a criação da capa, um poema visual barroco composto por Carlos Fernando. Impresso com letras roxas em papel verde, o livro se distancia em muito da estética “bauhaus” que predomina na modernidade. Além de citar literalmente Antônio Vieira, a obra apresenta alguns acrósticos, o que causou espanto e repúdio em alguns “críticos” míopes, incapazes de perceber o evidente barroquismo na sua ânsia de rotular de imediato como concretista um livro que trazia a orelha de Haroldo e a quarta-capa de Augusto de Campos. E é claro que os “leitores de orelha” predominam na vida cultural brasileira hoje.     

Você ganhou o prêmio Jabuti por Nada Feito Nada e teve sua poesia divulgada em revistas e antologias no Brasil e no exterior. No entanto, ficou sete anos sem publicar nada. Por quê?

FB – Porque é muito mais fácil calar. Porque cansa dar murro um ponta de faca. Porque o natural é não fazer. Na verdade, o que espanta é que alguém escreva, publique, lute etc. Para quê? Até hoje não sei.

Seu terceiro volume de poemas, Contracorrente, veio à luz do sol em 2000. Na provocativa apresentação da “orelha”, você reivindica o ideal de invenção e surpresa das vanguardas e faz a crítica da poesia acomodada, conformista, que dá o tom em boa parte da poesia atual. A seu ver, o que significa, hoje, a idéia de invenção?

FB – Inventivo sempre é quem enfrenta de frente os principais problemas da arte no seu tempo. Creio que os principais problemas da poesia brasileira hoje sejam o neoconservadorismo; o abandono da experimentação formal, substituída por fórmulas arcaizantes; a autocomplacência das panelinhas; a quase completa inexistência de uma crítica literária inteligente e estimulante; a falta de comunicação com o público leitor e uma pobreza semântica assustadora (em outras palavras: falta do que dizer). Assim, creio que os poetas que seguem experimentando, com muita autocrítica e exigência, procurando abordar aspectos significativos da vida de hoje, sem receio de buscar um público leitor mais amplo, são aqueles que praticam uma “poesia de invenção”. São apenas esses (poucos) que me interessam. Como eu já disse algumas vezes, qualidade sem inventividade não é arte, é burocracia, é papo furado, papo de otário. O conceito de “invenção” não foi criado pelas vanguardas, muito menos pela Poesia Concreta, como pensam alguns desinformados. Invenção é tudo na poesia, desde Homero. O resto é conversa para boi dormir, picaretagem.

“Ela era linda e loira / e me visitava às tardes. / Fumava maconha / contra minha vontade. / E eu, careta, / chapava. / Era só larica, / na sua malícia, / irracional / idade”. Em peças como esta, você deixa um pouco de lado o repertório erudito para falar a um público mais jovem, usando a coloquialidade e a temática urbana. O que levou a essa mudança de timbre em teu trabalho?

FB – Nos meus sete anos de silêncio, entre Nada Feito Nada e Contracorrente, pensei muito sobre como continuar a escrever. Sempre cri que o que importa mesmo na poesia é a forma. Não a fôrma, prisão, mas a estrutura orgânica do texto. O que importa é como se diz e não o que se diz. Mas demorei muito para concluir o óbvio. Se o que importa é a forma, o vigor da composição, por que não unir à preocupação estrutural a busca de um conteúdo que tenha impacto e fale das coisas que, de fato, preocupam e afligem as pessoas hoje? Já cansei de poetas ditos refinados que fazem uma poesia frouxa, cheia de artifícios e que nada dizem do nosso tempo. Que ficam fazendo firula para descrever um peixe no prato ou uma visão besta de um quadro, ou de flores e corolas nos bairros nobres de São Paulo ou do Rio de Janeiro, ou se fingindo de velho, escrevendo a biografia de uma árvore. Masturbação inócua. Estou certo de que é possível unir a experimentação inventiva e rigorosa dos concretos ao ímpeto de denúncia e protesto dos “engajados” e a o que há de engenhoso e inventivo dos “marginais”. É possível conseguir tudo isso ao mesmo tempo? Leminski de certa forma conseguiu, eu estou tentando de forma diferente…

Louco no Oco sem Beiras (Anatomia da Depressão), seu quarto volume de poemas, publicado em 2001, é um longo discurso sobre o absurdo da rotina cotidiana, com seus compromissos impessoais que sobrepõem as exigências laborais à criatividade e ao livre-arbítrio do ser humano. É um livro que nasce no limiar de uma nova fase histórica, marcada pelo retrocesso dos direitos civis em nome da luta contra o terrorismo, após o 11 de setembro. A seu ver, o que pode fazer a poesia em meio a esse mundo caótico?

FB – Já que pouco podemos fazer para minimizar o caos do mundo, pelo menos podemos, através da poesia, tentar organizar o nosso horror interior. Alertar e protestar. Encontrar parceiros nessa revolta e dar voz aos que, mesmo a sentindo, nem sempre a conseguem expressar. A crise que descrevi em Louco no Oco sem Beiras é minha, mas é lógico que é uma crise generalizada. Quantos não sentem a depressão que descrevi no livro? Sei que inúmeros. Espero que a leitura do livro possa ajudar muita gente a procurar lutar, como faço, contra a depressão, contra o “oco sem beiras” que nos rodeia. O termo “oco sem beiras” é de João Guimarães Rosa. Achei-o no trecho que se lê na epígrafe do livro, do conto “Soroco, sua mãe, sua filha”. Curioso é que, ao lado dos temas da loucura e da solidão, sobressai-se no conto o tema da solidariedade. Talvez seja esse o caminho. O do final do conto: “A gente, com ele, ia até aonde que ia aquela cantiga.” A poesia pode, creio eu, ajudar homens e mulheres a se encontrarem. No cantar contra a solidão, a loucura, o caos e a guerra. Contra os mísseis, contra as bombas: a missão da palavra bomba.

Após escrever sobre o caos, a crise, o tumulto, você mudou de timbre em Cantar de Amor Entre os Escombros, que saiu em 2002. Esse livro, que reúne os poemas de amor publicados em seus títulos anteriores, sinaliza a dimensão do afeto como utopia individual possível, quando não há mais projetos sociais alternativos?

FB – Sinceramente, não havia pensado nisso. A antologia Cantar de Amor entre os Escombros na verdade nasceu como uma resposta a alguns críticos ou mesmo certos amigos que cobravam mais lirismo na minha poesia. Resolvi mostrar que já havia muitos poemas de amor entre os “infernos diversos” que chamam muito a atenção nos meus livros. Mas acho bem interessante a sua leitura. Aprendi com ela. É um bom exemplo do que eu dizia sobre a importância de uma crítica inteligente e estimulante. Cabe ao crítico revelar ao artista seu próprio modo de trabalho. Como disse Paul Valéry, “o objetivo da obra é surpreender o autor.”

“Só um som se inicia nesse suspiro / imagem insidiosa e incendiária / esses ‘ésses’ se insinuando / na memória das suas curvas / no sonho silêncio dos seus seios”. Nesta composição, é explorada a relação icônica entre a grafia da letra s e as formas da mulher, numa partitura fortemente aliterativa. Apesar do rigor construtivo, porém, o poema ganha certa espontaneidade na leitura declamada, tendo recebido inclusive uma versão musicada, em ritmo de música popular. Como se dá o trânsito entre o coloquial e o erudito em teu processo criativo?   

FB – Cultura e erudição são fundamentais para qualquer ser humano. O que é lamentável é a ostentação de cultura, em geral feita por pessoas que a têm apenas como verniz. Na poesia, isso é uma praga. Estou farto de poetas “novo cultos”, para os quais a poesia é um veículo de esnobismo cultural. Não me interessa fazer uma arte “erudita”. Quero escrever e ponto. Algumas pessoas já me chamaram de poeta “erudito”, outros de poeta “comercial” (pasme). Ocorre que, na triste pobreza do ambiente cultural brasileiro, o meu mundo e as minhas referências acabam sendo vistas como muito “eruditas”. Por outro lado, como não lido com a cultura com a afetação que caracteriza o universo acadêmico brasileiro e não nego minha intenção de atingir um público mais amplo do que o atual para a minha poesia, sou visto como “comercial”. Talvez um caso raro e paradoxal de poeta “erudito-comercial”. certamente fadado ao fracasso. 

 

(Esta entrevista foi publicada inicialmente no jornal Correio das Artes, publicado na Paraíba.)

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