Ivan Teixeira

Frederico Barbosa, poeta e Professor de Literatura do Anglo Vestibulares, conquista o prêmio Jabuti-94 de poesia, com o livro Nada feito Nada. 
Ivan Teixeira

Tudo o que se faz com amor enlouquece um pouco a gente, sobretudo quando se trata de poesia. Vejam o livro do Frederico Barbosa, Nada Feito Nada. Há um pouquinho de loucura ali, daquela loucura proveniente da coragem expressiva. A coisa parece simples, mas é muito complicada. Na verdade, envolve toda a vida, mas não chega a valer muito. O Fred, como qualquer um de nós, desejava se expressar. Queria impor sua voz. Mas antes de falar, procurou organizar sua loucura: como fazer, de que lado ficar? Colocado o problema, optou pelo caminho certo. Percebeu, a tempo, que era essencial modular o tom pela modernidade, pela pesquisa de formas, pelo ajuste corn seu tempo. Claro que isso demandou esforço, concentração e disciplina. Mas valeu a pena. E o resultado esta aí, esse delicioso Nada Feito Nada. Mesmo sem o Jabuti – essa espécie de Oscar da poesia em São Paulo –, o livro seria cativante.
Álvares de Azevedo contemporâneo

O traço mais apreciável de Fred é que ele consegue ser uma espécie de Álvares de Azevedo dentro de uma poética contemporânea. O seu livro é muito bem organizado: há um momento para o compromisso com a geometria impessoal das formas, mas há também um momento para o compromisso com o resgate das raízes pessoais.
No primeiro caso, ele busca se expressar mediante a desarticulação do discurso, coordenando blocos enigmáticos de palavras iluminadas ao lado de outras em corpo normal, numa constelação prodigiosa de signos em movimento. Como um inseto que procura saída, ele insiste em anunciar a impossibilidade de expressão, fazendo disso uma espécie de assunto às avessas. Essa descrença, essencial à poesia contemporânea, converte-se em impulso afirmativo na série “Sem Nem”, baseada em negações sobre negações. Trata-se de uma espécie de sim através do não. Nesse lado construtivista de seu livro, Fred elabora também montagens preciosas, como aquelas sob inspiração de Gilberto Freire, a partir de anúncios de jornais recifenses do século passado.

O reviramento das entranhas

Na face do comprometimento existencial, Nada Feito Nada restaura a crença na hipótese da poesia expressiva, isto é, aquela que acredita no valor das verdades subjetivas. De fato, quando menos se espera, surge um maravilhoso poema de reviramento das entranhas: “Certa Biblioteca Pessoal”. Trata-se de um inspirado díptico articulado em fragmentos independentes. Neles, Fred reencarna o espírito coloquial das “Idéias íntimas”, de Álvares de Azevedo, produzindo um dos grandes momentos líricos da jovem poesia brasileira. Aí, entra um pouco de tudo: infância, praia, pai, livros bonitos, viagens, preceitos críticos sobre literatura, modernidade, poesia, arquitetura etc. Compaparando-se a um menino deslumbrado com a primeira viagem de avião, o poeta procura revirginar a sensibilidade para apreender o mundo pelo lado da maravilha e da autenticidade.
O traço forte de “Certa Biblioteca Pessoal” consiste sobretudo no resgate da inocência sem perda da consciência. Nesse passo, a literatura funde-se com a vida, gerando uma harmonia que ressoa em todo o poema e lhe assegura qualidade: um corvo grasna em meio à biblioteca, pousando na cândida face de Alice. Essa fusão de Poe com Lewis Carroll simboliza a função essencial de uma verdadeira biblioteca: fazer com que os dois lados da vida, inocência e consciência, se unam para o urdimento da integridade (mas nem tanto) do indivíduo, possível somente através da arte.

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