Apresentação de Na Lata

Apresentação de Na Lata

Anúncios

LOUCO NO OCO SEM BEIRAS

stieglitz2

o acordar é o
grave o

dia o
diabo o
diabólico o

sono o
sono o

horror o
chumbo o
mais que profundo o

todo o dia o
sempre o
diabo azul o
branco o

desespertador

começo-me
como quem grita sem
luz sem voz sem vis sem vez sem mais

desfocado
fora de faro
formigando em
câmera lenta

sem coragem
sem o que me dispare

vou
saio da (caio da

cama
coma
como
quem
se con-
some
so) nado

acordo
ao  eu
abalo

troco-me no tremor
do atraso

de mente névoa o
pedido: cama!

do relógio o
grito: bravo!

o atraso o atraso o
duas horas de sono
descompasso

quando muito duas horas

outras tantas horas
passo me decompondo

quantas muitas outras horas

passam com desdém
no eu opaco

horas
passam eu passo
a noite em branco
descompasso

procuro no vão
pegar
no sono do sono sem sono
apagar
do sono no sono sem sono

procuro no vão
do sono

rondam fantasmas
lembranças lentes
resgates graves
do esquecimento:

rolam farrapos
detalhes frágeis
resquícios do dia
entraves lentos :

talvez razão na insônia
talvez insânia

anos:
nos meus oito
a aurora

ardia

infância

que
ri
da

vida


para não chorar

nos meus oito
deslocado: calava
( aquele menino tão bonzinho quietinho
quietinho (diziam
( e nem eu sabia como não ser como já
não queria (viver
( essa triste corrosão mais que doença
já mais que (não

na minha infância
doente
cansava noites
lendo só viagem
doendo doendo

até que
a aurora já
trazia a dor
real do dia
grito solar

perdi meu sol do nordeste
por esse ressentimento
eu exílio sono lento

aos quinze era camus
que não me deixava dormir
estrangeiro em mim

de camus em diante
deitava descrente
e me deixava sentir
na cama morto o
morto

sentir o inútil o
nada se não há
como fingir-se nada
ir ao suposto o
nada se não há nada
além do nada

eis a piada
mas não sorria
incapaz

tremia
simulacro de vácuo
sem paz
nesse buraco

nunca cri
nunca quis outro plano

nunca soube
por engano ser feliz

na treva névoa
da clara lucidez

restou-me esse
desprezo essa mudez

a consciência
ronda
da morte
impede na pele
ronda
no sono
impele pede
a consciência

e volto
ao
velho
zero
rarefeito
nada o

o que me espanta não é a morte
é ouvi-la tão aguda
que por sorte não se escuta
sonos:
dos meus oito
um pesadelo velho

linhas cores correm horrores o
desencontro sem ritmo pacto
decomposição do abstrato

acordava absurdo
ouvido amplificado
distante das coisas
todas
do ar de mim
aos quinze
uma borboleta negra
pousou em mim

me descobri escuro
olhos vidrados na morte
gritos mancos no corredor

era só um bicho
e eu o monstro voador

agora
acordo
ao eu
abalo
armado

saio da cama
barata
que range
sem saída
como rato
enjaulado

sem sal
nem samsa
que salve
desse mal

caio da cama
no abismo compromisso

saio tarde demais
morto demais
para um café
para pensar em ser

os obstáculos
como teias cheias
de tentáculos

o
elevador o
trânsito o
horror o

trabalho o
sempre mesmo o
desconsolo vago

dou só
suado a aula
pânico frontal

mímico no escuro
grito no vácuo
carta que se perdeu
no atalho marginal

poesia ou geometria:
nada comove
passam pontos planos retas
nenhum som ou rosa envolve

tudo tomba
semente em pedras
tumbas
eu
professor estou

e dou só
aquela aula
densa
pesadelo
sem tato
que se pensa

e é só pó
de mico
nesse carnaval

tontos
só querem
a brisa
leve só
que neutraliza
o difícil necessário
que a gente finge
ensinar só
quem poderia me ouvir
nessa angústia
a quem interessaria o
meu poço o
esforço pendular
quem quer saber
do meu umbigo o
nariz perdido
sem um cavalo magro
sigo no carro calado o

perdi a chave
não paguei

perdi os óculos
não fechei

perdi a carteira
não olhei

surtei

os sustos
dos pequenos surtos o

soco na parede o
chute na porta o
punho na mesa o

ódio do sólido o
suor da pancada o
peso da barra o

que é pior
a vergonha o
espetáculo o
louco show do horror

tudo quebra
carro vaso tv

as coisas caem
sem o saber

só eu me quebro
contra a parede
por querer

sem um puto
e ainda puto com tanto
poeta prosa
escuto do povo
um poema joyce rosa:
“pobrema é coisa de pobre seu moço”

e vomitei meu almoço

e se o dente doer
esqueço

sem dinheiro sem conserto
nervo exposto desespero

esqueço
panaca
não entende a minha raiva

tem tudo
e vence
e vem se gabar
na minha cara

não lhe dói o dente
nada é sem remédio
não ficou sem um puto
não tropeça por aí
de sono e tédio

não entende
é esperto

panaca
não me fale em planos
de vida ou outros tantos

não me venha com projetos
certos perfeitos retos

danem-se os orçamentos

vivi torto porque quis
felizmente infeliz

sou bomba sem pacto
pavio curto de cacto

e saia de perto
que é estouro certo
sem o que me dispare
gatilho armado
destempero

explodo (sic) em erros

cheio disso daquilo
de quem me diz: pára!

por nada às armas
nitroglicerina ensimesmada

sem o que me disparo

qualquer contratempo
deflagra
atiro pedras latidos sem causa

descontrole emocional
dirá o boçal

mas só a raiva me salva
de ser seu igual

só latidos ao

só a raiva me salva
desperta concreta

o resto é a sombra
áspera
do mal cheiro geral

sombra insípida
entorpecendo os gritos
anestesiando
incompletos
arremedos de bocejos

perco meu tempo
no lixo fácil
no banheiro internet
no esporte da tv
desperdiço-me anos
como se passaram tantos
como

papo de chat
chato chato
mal de e-mail
virtualidades banais
e meu tempo se vai
on-line

o mundo se arma
para o blá-blá-blá

satélite browser
telefone celular

ondas e sondas
sem ter o que falar

e depois a culpa
ainda a culpa
a sempre culpa o

remorso o
descontrole o
lamento o
desperdício o

remoer o dia inteiro

nem nas horas de folga
nas poucas horas de folga

sossego

há sempre o que fazer
há sempre o que não fiz
há sempre o que farei
há sempre
há sempre

esse desassossego
fim de domingo
ao som da tv

a vida pelo ralo
desperdício de ser

dias passados no vaso
reino refúgio solitário

até o pé formigar
e o real imperar sanitário

certos meninos espertos
imaginaram a vida
doença da morte

fungo no vácuo
poço de vermes
à beira do nada

sem querer acertaram
na mosca do lado

estranha urgência
essa
distorcida em grito
de raio paralisador
estranha urgência
essa
certeza da
essa

o diabo do byron
matinal azul
a corroer meu fígado
embaçar meu humor o
baço
o diabo no menino
eu aos oito
no adolescente metido
a blue
o diabo do byron ainda
mal será azul do século
que se abre em terror
pressão de ser

presa
nessa pressa
depressão

o branco
o diabo azul
o sempre
o todo dia

o mais que profundo
o chumbo
o horror

o sono
o sono

o diabólico
o diabo
o dia

o grave
o acordar é o

desespertador

in  Na Lata, Editora Iluminuras, 2013

Vocação do Recife – para Jomard Muniz de Britto

Franz Post - Vista da Cidade Maurícia e do Recife (1657)

Franz Post – Vista da Cidade Maurícia e do Recife (1657)

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois –
Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
Manuel Bandeira – Evocação do Recife


Recife sim
das revoluções libertárias
da teimosia ácida
do contra.

Não o Recife da minha infância
de golpe e exílios
gorilas e séquito
de vermes venais.

Recife sim
da coragem Caneca
da conscientização neológica
das lutas ligas lentes
do sempre
não.

Não o Recife sem literatura
no papo raso da elite vesga
a vida mole e a mente dura.

Recife sim
poesia e destino
na memória clandestina
de sombras magras
sobre pontes e postais.

Bandeira
sutil na preterição sim.

Clarice sim
frieza entranhada
na estranheza de ser Recife.

Recife sim
na literatura navalha
só lâmina solar
solidão sem soluços
só suor de João Cabral.

Recife sim
nos cortes certos
de Sebastião
contra a metáfora vaga
e o secreto.

Não o Recife sonho consumo
de turistas e prostitutas
na praia do sim
shopping sem graça
de Boa Viagem.

Recife sim
que em Nova Iorque
se revê
Hudson Capibaribe
ecos de Amsterdam.

Recife rios
ilhas retalhos
retiros velhos
reflexos de Holanda.

Não o Recife que revolta
na extrema diferença.
Não o Recife que expulsou
sua própria inteligência.

Recife sim
que se revolta
vivo.

Faca clara
que ainda fala
não.

DOS SENTIDOS, O SENTIR: FORMA QUE REFORMA DENTRO (fragmento) por Susanna Busato

” Em nove partes o livro se desdobra. Cada uma delas se quer unida por um tema. Mas inútil esse esforço por dividir as rotas de nossa leitura, pois elas se entrelaçam. Nossos “aquis” estão em muitos “alis”, em seu livro. A sequência dos poemas vai construindo uma coerência interna ao livro. Uma arquitetura gráfica que se inscreve em cenas e dilemas. Poesia sem solução. Ironia que adensa a escritura como possibilidade de abismar-se a cada página. Uma insistência que persiste. Necessidade de abutre: devorar no poema a forma, seja de onde for, transformar stein em stain, na pedra sua marca, sua palavra: gertrude, a poeta; picasso, o pintor; na mira do poema, em em stain, a marca, como plasticamente constrói em “PICASSO NA RUE DE FLEURUS”.

A poesia de Fred é, pois, uma poesia das sensações e dos sentidos, que nos fazem prestar atenção na camada rugosa da paisagem, suas asperezas e jactâncias, para, em seguida, protejar-nos nos poros dessa pele que sente as pulsões do desejo com que a poesia se nutre. O que é essa presença tátil do corpo que a palavra desdobra em verso na abertura do livro? “Todos os sentidos” inicia a série de poemas com aquilo que a percepção revela como o lugar da presença sensível, tátil e visual, do sujeito, que vai imprimir na palavra sua matéria plástica.

sentimento:
forma que
reforma
dentro

Trecho da Apresentação de Susanna Busato para o Na Lata, a ser lançado no dia 6 de junho na Casa das Rosas das 18 às 22h.