Entrevista a Leo Barbosa – 2013

ENTREVISTA COM FREDERICO BARBOSA

no blog Zona da Palavra

Por Leo Barbosa                           na lata

O poeta Frederico Barbosa completa 50 anos de idade e 35 anos de puro vigor poético tanto na sua produção quanto na sua itinerância. E, para celebrar, o poeta nos contempla com o livro “Na Lata” (poesia reunida) no qual o autor retorna construções, sensações e as reúnem em um tempo organizado em onze partes. O livro foi elaborado de forma que devemos descartar qualquer progressão cronológica porque a progressão temática é anacrônica, pois o poeta está sempre indo,vindo e avançando na sua consciência e inconsciência. Frederico é diretor da Casa das Rosas (SP) onde promove saraus, oficinas culturais, palestras e, também, é colunista da Rádio Estadão ((http://radio.estadao.com.br/)) com o quadro Poesia viva. A zonadapalavra teve o prazer de entrevistá-lo numa conversa imperdível. Caro leitores, leiam “Na Lata” e sem papas nos olhos.

Qual é a sensação de revisitar 35 anos de poesia? Você se reconhece nos seus primeiros versos ou aquele Frederico se perdeu no tempo?

R- São 35 anos de poesia e vida. Ao ler meus poemas do final dos anos 1970 ou do começo da década de 1980 sinto como se estivesse lendo poemas de outra pessoa. Mas me recordo de como construí cada um deles e, embora veja que mudei muito, não acho que o que escrevo hoje é melhor do que o fazia então. É só diferente. Esta é uma das razões que me levaram a organizar o livro Na Lata de forma bastante diferente de todas as “obras completas” que conheço. Não o fiz cronologicamente, mas agrupando os poemas por temas ou procedimentos poéticos. Creio que, excetuados os poemas que carregam alguma data no título, o leitor que não conhece os textos antigos talvez não perceba quais foram escritos em 1978 e quais foram escritos em 2013. Ou seja, como dizem os franceses: “plus ça change, plus c’est la même chose.”

Mario Quintana dizia que pertencer a uma escola literária é o mesmo que viver em uma prisão perpétua. Uma vez, em uma conversa, você disse que não gosta de ser rotulado como um poeta neoconcretista, então como você se definiria?

R- Vivemos um tempo pós-utópico, como o definiu Haroldo de Campos, em que os projetos artísticos coletivos perderam o sentido. Mas mesmo os poetas do passado não gostavam de ser rotulados. Claudio Manuel da Costa não se via neoclássico, Olavo Bilac dizia não pertencer a escola parnasiana nenhuma… Eu me sinto absolutamente só na minha criação. Não pertenço a grupo algum nem me reconheço na poesia de nenhum outro poeta, embora admire muito a obra de vários companheiros de geração. Acho que as definições só virão (se vierem) com a avaliação do maior dos críticos literários: o tempo.

Há quem diga que a poesia é inútil. A poesia veio a ter que propósito em sua vida? O que representa a poesia para você?

R- O que é útil na vida? Se levarmos a reflexão adiante, veremos que viver em si é absolutamente inútil. É um jogo de cartas marcadas, em que se sabe perfeitamente que se vai perder feio no final. Mas continuamos jogando mesmo assim. Já a poesia é muito útil, dentro da inutilidade da vida em si. Para que ler poesia? Há inúmeras respostas a esta questão. Mas quase todas são variações sutis de um denominador comum: para sentir.

Ou seja, quem lê poesia sente mais. Se o poeta escreve para fazer os leitores sentirem a dor “que eles não têm”, como já o colocou Fernando Pessoa, o leitor busca não apenas reconhecer no texto poético seus próprios sentimentos, mas também vivenciar, por meio da leitura, sentimentos por vezes desconhecidos, que com frequência projeta nas palavras ou mesmo na figura do poeta, ou do famoso “eu lírico”. Assim, a leitura amplia não só a bagagem cultural, mas, melhor ainda, até o repertório emocional e a experiência sentimental do leitor. Lendo uma obra realmente significativa, aprende-se a sentir mais e melhor, refina-se o gosto, o prazer, o sexo e até o amor.

Quais foram os escritores/poetas que ajudaram a construir a sua voz poética?

R- Essa pergunta é muito ampla. Creio que toda e qualquer leitura contribui para a construção de uma voz poética. Mesmo as de obras que você não goste nada, pois contribuem para a formação do espírito crítico. Outra questão é que nem sempre os escritores de que você mais gosta são aqueles que mais lhe influenciaram. Sem saber, você pode ser influenciado por escritores de que gosta menos. Mas sem dúvida alguns escritores sempre me fascinaram. Homero e Sófocles, Shakespeare, Flaubert, Dostoiévski, Henry James, Machado de Assis, Albert Camus, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, T.S. Eliot, Ezra Pound, Samuel Beckett, Gertrude Stein, João Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Augusto e Haroldo de Campos, etc.

Como é seu processo de criação literária?

R- Sofro muito com minha indisciplina. Queria escrever mais, mas tenho essa mania de trabalhar demais com outras coisas e muita dificuldade de concentração. Muitos dos meus poemas foram produzidos com raiva ou na depressão. É curioso, mas quando estou feliz demais fica difícil sobrar tempo para escrever. Ainda tenho esperança de me organizar para escrever mais.

Nesses 35 anos de poesia, você, certamente, conviveu com muitos poetas, leu muita poesia, além de ser crítico literário e professor de literatura. Como você vê o cenário atual da poesia brasileira?

R- Vejo com muito otimismo. Surgem poetas muito interessantes de todos os lugares e de todos os tipos. A democratização do acesso ao conhecimento está transformando este país. A poesia está explodindo. É tudo bom? Claro que não, nunca foi. Mas a quantidade expressiva de coisa boa aparecendo vai levar necessariamente a um aumento gradativo da qualidade. Até uns vinte anos atrás, poesia era coisa de elite. Isto está mudando.

N.o percurso literário há quem nos ajuda e há pessoa que tentam “atravancar nosso caminho”, diga, “na lata”, algumas palavras para essas pessoas.

R- Para quem ajuda: obrigado! Eu sempre tive muita gente bacana me ajudando e, por isso mesmo, sempre procuro ajudar a todos que posso. Para quem intencionalmente atrapalha, o meu mais profundo desdém.

O que mais pesa “na lata” de um poeta?

R- Os pesadelos.

Na epígrafe da apresentação do livro, você diz, através de Machado de Assis, que não quer “dar pasto à crítica do futuro”. A crítica do presente tem lhe satisfeito? A crítica literária está “sem futuro”?

R- A crítica literária militante, da imprensa, já foi aniquilada com o enxugamento do tamanho dos jornais e a extinção das revistas especializadas em literatura no Brasil. Na época em que meus primeiros livros foram lançados ainda havia espaço e críticos inteligentes como Felipe Fortuna e Nelson Ascher, que se ocuparam (nem sempre elogiando) da minha obra.  Hoje se pratica a melhor crítica nas universidade. Não à toa, é lá que se encontram os melhores leitores da minha poesia hoje, como Luiz Costa Lima, Amador Ribeiro Neto e Susanna Busato. É curioso notar que há cerca de trinta anos era praticamente proibido se falar em autores vivos nas universidades. Conta-se que Marques Rebelo respondeu assim a um amigo que lhe pedira para ser incluído na sua Antologia Escolar Brasileira: “Morra! Só incluo morto, vivo dá muito problema”. A universidade até pouco imitava o prudente escritor carioca: evitava o contemporâneo, com receio de não conseguir “dar conta” do novo sem o apoio de surradas teorias ou do cânone legitimador.

Nos últimas décadas, o cenário vem mudando. Graças ao trabalho de professores como Iumna Maria Simon, Viviana Bosi e Antônio Vicente Pietroforte na USP, Susanna Busato e Diana Junkes Toneto na Unesp, Marcos Siscar na Unicamp, Amador Ribeiro Neto na UFPB, Maria Rosa Duarte, Vera Bastazin e Maria Aparecida Junqueira na PUC/SP, a poesia contemporânea brasileira, rica e controversa, tem sido mais estudada na universidade. No Rio de Janeiro, isto é feito há décadas pela pioneira Heloísa Buarque de Hollanda e mais recentemente por Celia Pedrosa, Alberto Pucheu e Italo Moriconi.

Nesse pouco tempo na zonadapalavra, o que se pode dizer sobre este espaço?

R- Que tem sido um prazer frequentar a zona!

Por último, diga o que quiser, a quem quiser, responda o não perguntado “na lata” ou fora da “lata”.

R- Sim, eu estou muito feliz com a publicação do meu livro.

(Publicado em 31/05/2013)

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