Resenha de Brasibraseiro por Manuel da Costa Pinto (2004)

Poesia a quatro mãos

Manuel da Costa Pinto

Livros de poesia escritos em parceria, com poemas que dialogam entre si, são pouco comuns, mas podem ser considerados um gênero paralelo ou um subgênero literário (sem conotação pejorativa). Nos últimos anos, surgiram no Brasil várias publicações que exploram essa vizinhança poética, como “Um Mundo Só para Cada Par”, de Fabiano Calixto, Kleber Mantovani e Tarso de Melo, e “Móbiles”, pequeno volume com um poema de Augusto Massi e outro de Age de Carvalho.

O próprio Age de Carvalho é autor, com Max Martins, de “A Fala entre Parêntesis”, na forma de renga -exercício poético de origem japonesa em que os poetas escrevem em cadeia, como no livro “Together”, organizado por Régis Bonvicino, envolvendo 29 autores.

Agora surgem dois novos títulos: “Versos Avessos”, de Celso Freire e Debora de Simas, e “Brasibraseiro”, de Antonio Risério e Frederico Barbosa. São livros muito diferentes na intenção e na realização, mas que têm em comum aquele diálogo cerrado entre os poemas.

“Versos Avessos” reúne fragmentos do discurso amoroso de Celso Freire e Debora de Simas. Para leitores que procuram o transtorno das formas poéticas e do discurso corriqueiro, será decepcionante. Apesar do inventivo projeto gráfico (os poemas de Simas são impressos em papel transparente, sobrepondo-se aos de Freire de modo a ressaltar o paralelismo dos textos), o livro tem um lirismo nada comedido. Pode agradar quem se identifica com poesia emotiva, de caráter confessional, em que as palavras são “promessas do amor infindável”.

Bem outro é o caso de “Brasibraseiro”. O título foi tirado de uma passagem de “O Inferno de Wall Street”, de Sousândrade (“Brasil, é braseiro de rosas”), e o objetivo expresso do livro é refletir “criticamente sobre esse projeto civilizatório chamado Brasil”.

A proposta é conseqüente com a trajetória dos autores. Risério é um antropólogo que vem fazendo pesquisas no campo da etnopoesia, com o resgate de textos afro-brasileiros que reverberam em sua própria produção literária.

Frederico Barbosa tem sido defensor da chamada “poesia de invenção”, expressão que Haroldo de Campos cunhou para designar textos que ampliam o repertório das formas poéticas, mas que também têm um significado “político”: a resistência aos lugares-comuns (poéticos ou não) em que a realidade se perpetua.

Nesse sentido, “Brasibraseiro” é uma viagem pela história e pelo imaginário do país, apropriando-se de formas do passado para criar nova poesia e, por extensão, nova leitura dessa história. Risério e Barbosa escarnecem de nossos traumas seculares (massacres de índios, escravidão, turismo sexual) de forma virulenta, sob o signo do ultrapassamento crítico da realidade social e da renovação da história literária recente.

Um dos procedimentos recorrentes é o “ready made”, ou seja, a transposição de textos de jornais e livros para uma forma poética que os ressignifica de modo irônico -caso, por exemplo, de “Lance Búzios”, em que Risério atualiza frases de pasquins subversivos da Revolução dos Alfaiates (ocorrida na Bahia em 1789).

Mas há várias outras poéticas embutidas em “Brasibraseiro”, cujo momento mais feliz e complexo talvez seja o poema “Da Boça à Bossa”, em que Frederico Barbosa retoma “O Navio Negreiro” de Castro Alves no ritmo binário do “I-Juca Pirama”, de Gonçalves Dias, agora sob o signo da resistência multicultural:

“Objetos de bordo/ atados à boça/ balançam e dançam/ em baques e sovas// na boça no cabo/ atados à proa/ balançam e dançam/ sem berros na forca// em terras estranhas/ são negros boçais/ estúpidos rudes/ ignorantes banais// mas longe da boça/ de servos à força/ balançam e dançam/ seu banzo blues troça// resistem no samba/ no jazz capoeira/ balançam e dançam/ batuque rasteira// inventam a bossa/ vingança da boça”.

Resenha publicada no caderno Ilustrada do jornal A Folha de São Paulo, sábado, 19 de junho de 2004.

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