Resenha de Rarefato por Felipe Fortuna (1990)

Frederico Barbosa recupera lirismo sem remorso

Felipe Fortuna

 Resenha publicada no jornal Folha de S. Paulo, caderno “Letras”, 03/11/90.

 

A poesia de Frederico Barbosa causa uma surpresa inicial: moderna, induz o seu leitor a mais um contato com os temas do silêncio e do nada, conforme se lê já no primeiro verso do primeiro poema, ”Rarefato”:

Nenhuma voz humana aqui se pronuncia.

Desde então, percebem-se as obsessões essenciais de uma poesia formada sobretudo pela intertextualidade e pela alusão à cultura cult da modernidade. Não se duvide ser a inaugural palavra “nenhuma” a evocação emblemática de um primeiro verso de um primeiro poema de Mallarmé, ”Rien” – Rien, cette écume, vierge vers – e mesmo de Guimarães Rosa, na soberba abertura de Grande Sertão: Veredas: Nonada. Assim, à consideração feita por Sebastião Uchôa Leite, de que o poeta está vinculado à linhagem dos poetas intelectuais, prefiro considerá-lo um poeta remissivo, um poeta que concebe cada poema seu como uma torrente de alusões e citações, como se cada verso fosse um asterisco que remetesse a um verbete. Apesar de, na sua pequena introdução, Sebastião Uchôa Leite afirmar que o poeta de Rarefato já contém complexidades de quem conhece bem o território poético, permito-me supor que não são essas complexidades a característica do poeta, de resto comuns a muitos poetas recém-publicados. O poema moderno precisa, definitivamente, livrar-se da vocação para o palimpsesto e preservar-se do perigo da informação, estigmas que vêm convertendo o leitor e o crítico em meros decifradores, em vozes da arqueologia universitária que se satisfazem com o prazer da decodificação e do reconhecimento da confraria espiritual dos poetas.

A surpresa de estréia de Frederico Barbosa, no entanto, é a afirmação de sua qualidade: não se trata de um poeta niilista. Sua poesia não é uma toada culta que despreza a própria literatura, atitude comum dos que não sabem fazê-la sequer pelo avesso. É poesia afeiçoada pelo fragmento, mas não pela destruição. E que, enfim, ao incluir em seus versos um vasto paideuma, não o faz com o sentido do rompimento e da negação, mas sim da preservação de um cânon literário. Significativamente, um dos seus poemas conclui:

contra o nada,

velha palavra.

Frederico Barbosa não recusa o lirismo nem a força verbal essencial do verso; valoriza as aliterações, explorando-as até o limite de um trocadilho, e insiste nas rimas internas e na rima toante – esta última, uma influência notável da poesia de João Cabral de Melo Neto. Sua contenção, traduzida nos poemas curtos e nas bem realizadas experiências com o fragmento, se define mais pelo quem tem a dizer do que pelo que não tem, muito ao contrário da experiência nanica e intelectualmente débil da geração de 70. Numa breve comparação, a poesia de Frederico Barbosa carece do humor típico da experiência marginal daqueles anos, oriundo da leitura de Oswald de Andrade (muito embora filtrada pelo sucesso do tropicalismo). No que se refere à sua organização espacial, a sua poesia é muito semelhante à de Ronaldo Brito, como se nota, entre outros, no poema “O Ano Passado em São Silvestre”. Mas evita a qualidade auto-destrutiva que pude assinalar em outro artigo, sobre o autor de Quarta do Singular (1989), e não elege a dessacralização literária como tema primordial.

Assim, a poesia de Frederico Barbosa consegue recuperar uma tradição do lirismo sem confessar remorsos. Não é reducionista, mas preocupada com a pluralidade. Pode-se aproximar, sobretudo no tocante às linguagens não-literárias, a poesia de Frederico Barbosa à de Armando Freitas Filho. Ambas possuem a inventividade e a evolução daquilo que Erich Auerbach denominava de mistura de estilos – Stilmischung. Imagens de grande força, como

tudo que escoa em silêncio em tempo ecoa

revelam um poeta também afeito à meditação e às definições aforismáticas; ao mesmo tempo, num poema de tom intimista e erótico, este achado:

um sol

supõe

cristal

no ar.

Rarefato consegue superar a tradição dos poetas que interpretaram desleixadamente alguma máximas da modernidade, que podem estar engastadas em duas afirmações de Paul Valéry, esse discípulo angustiado de Mallarmé: em Regards Sur le Monde Actuel, ele explica que nós somos os brinquedos das coisas ausentes; e, nos Mélanges, informa que o eu não é, talvez, mais do que uma noção convencional, tão vazia quanto o verbo ser. Não creio que a poesia de Frederico Barbosa esteja atrelada a essas concepções que induziram muitos ao minimalismo. Houve, sim algumas hesitações, como se lê nos versos de um dos sete poemas de “Austinlights”.

Vamos destruir a máquina:

enterrar a interpretação

o que, aliás, está bem ao gosto de Sebastião Uchôa Leite, seu apresentador, que escreveu no poema “A Morte dos Símbolos”, do livro Isso Não É Aquilo (1982): Vamos destruir a máquina das metáforas? Como se vê, a modernidade é muitas vezes um sintoma da sedução provocada, enfim, por um sentimento (auto)destrutivo.

Não está Frederico Barbosa alheio aos temas da ausência, da memória e do silêncio; nem mesmo ao franco exercício da intertextualidade. Mas em poemas como “Lascaux” e “Do Contra”, momentos culminantes do livro, o poeta consegue ultrapassar a mera referência cultural. As cavernas de Lascaux já tinham sugerido a Georges Bataille algumas inquisições sobre o sentido da religião, do jogo e do nascimento da arte. Para o autor de Rarefato as cavernas representam um ritmo de evocações intercruzadas, que se definem por variados ícones:

no cinema de Lascaux

(imagem sobre imagem)

cortes:

séculos de Klee

O segundo poema é uma interpretação da morte do poeta e da morte da poesia, talvez o único instante em que a visão sarcástica se volta contra o poema.

A estréia de Frederico Barbosa, estréia rara, parece importante por mais de um motivo, entre os quais o de reorientar muitos dos artifícios modernos da poesia praticada no Brasil. É mesmo, na definição de um verso do próprio poeta que a ele se desenvolve, um acidente branco em campo minado.

Sua poesia, oriunda de uma formação de leituras acadêmicas, zela pelos sentidos em fragmentação; é uma poesia de rigor – mas, paradoxalmente, de abandono de dogma

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